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Jamil Chade

Novas epidemias podem estar associadas ao desmatamento, alertam FAO e ONU

Ricardo Moraes/Reuters
Imagem: Ricardo Moraes/Reuters

Colunista do UOL

22/05/2020 05h00

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Um informe publicado nesta manhã pela ONU e pela FAO sobre o status das florestas no mundo não deixa dúvidas: o desmatamento continua a uma taxa alarmante. As entidades estimam ainda que a perda de cobertura florestal pode estar relacionada com o avanço de novas doenças, inclusive a covid-19.

"A maioria das novas doenças infecciosas que afetam os seres humanos, incluindo o vírus SRA-CoV2 que causou a atual pandemia de covid-19, são zoonóticas e seu surgimento pode estar ligado à perda de habitat devido à mudança de área florestal e à expansão das populações humanas em áreas florestais, o que aumenta a exposição humana à vida selvagem", alertam as entidades.

Desde 1990, estima-se que cerca de 420 milhões de hectares de floresta tenham sido perdidos por meio da conversão para outros usos da terra. Entre 2015 e 2020, a taxa de desmatamento foi estimada em 10 milhões de hectares por ano, contra 16 milhões de hectares por ano.

África e América Latina lideraram essa destruição. No caso latino-americano, o desmatamento chega a 2,5 milhões de hectares por ano. Hoje, o Brasil tem 12% da cobertura florestal do mundo.

De acordo com a ONU, a área de floresta primária no mundo diminuiu em mais de 80 milhões de hectares desde 1990. Mais de 100 milhões de hectares de florestas são afetados por incêndios florestais, pragas, doenças, secas de espécies invasoras e eventos climáticos adversos. Em seu informe, o Brasil é citado como um dos casos de incêndios florestais preocupantes.

A expansão agrícola continua sendo o principal motor do desmatamento e da perda da biodiversidade florestal. "A agricultura comercial em larga escala (principalmente a pecuária e o cultivo de soja e óleo de palma) foi responsável por 40% do desmatamento tropical entre 2000 e 2010, e a agricultura de subsistência local por mais 33 por cento", indicam a FAO e a ONU.

Segundo as entidades, a perda líquida de área florestal diminuiu substancialmente desde 1990, mas o mundo não está no caminho certo para cumprir a meta do Plano Estratégico das Nações Unidas para Florestas de aumentar a área florestal em 3% até 2030.

"Enquanto o desmatamento está ocorrendo em algumas áreas, novas florestas estão sendo estabelecidas através da expansão natural ou de esforços deliberados em outras", indicou. Na Europa e Ásia, há uma expansão da cobertura florestal.

"Como resultado, a perda líquida de área florestal é menor do que a taxa de desmatamento e também está diminuindo: De 7,8 milhões de hectares por ano nos anos 90 para 4,7 milhões de hectares por ano durante 2010- 2020. Em termos absolutos, a área florestal global diminuiu em 178 milhões de hectares entre 1990 e 2020, uma área aproximadamente do tamanho da Líbia", apontaram.

Biodiversidade e Agricultura

Os progressos na prevenção da extinção de espécies ameaçadas têm sido lentos.

Foram registradas mais de 60 000 espécies diferentes, das quais mais de 20 000 foram incluídas na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, e mais de 8 000 são avaliadas como globalmente ameaçadas. Mais de 1 400 espécies arbóreas são avaliadas como criticamente ameaçadas e em urgente necessidade de ação de conservação.

Para a ONU, o mundo precisa transformar os sistemas alimentares para "deter o desmatamento e a perda da biodiversidade". "Uma maior mudança transformadora é necessária na forma como produzimos e consumimos alimentos. Devemos nos afastar da situação atual em que a demanda por alimentos está resultando em práticas agrícolas inadequadas que impulsionar a conversão em larga escala das florestas para a produção agrícola e a perda da biodiversidade relacionada à floresta", defendeu.

"A adoção de práticas agroflorestais e de produção sustentável, o restabelecimento da produtividade de terras agrícolas degradadas, a adoção de dietas mais saudáveis e a redução da perda e desperdício de alimentos são ações que precisam ser ampliadas urgentemente", disse.

"O agronegócio deve cumprir seus compromissos com cadeias de commodities livres de desmatamento e as empresas que não assumiram compromissos de desmatamento zero devem fazê-lo. Os investidores em commodities devem adotar modelos de negócios que sejam ambiental e socialmente responsáveis", alertaram as entidades.

"Essas ações, em muitos casos, exigirão uma revisão das políticas atuais - em particular das políticas fiscais - e dos marcos regulatórios", completou.