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Jamil Chade


Pandemia ameaça deixar 80 milhões de crianças sem vacinação, alerta OMS

18.mai.2020 - Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante coletiva virtual - China News Service via Getty Images
18.mai.2020 - Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante coletiva virtual Imagem: China News Service via Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/05/2020 12h05

A pandemia está interrompendo os serviços de imunização que salvam vidas em todo o mundo, colocando milhões de crianças em risco de doenças como difteria, sarampo e poliomielite.

O alerta está sendo lançado nesta sexta-feira pela Organização Mundial da Saúde, UNICEF e Gavi, a aliança pela vacinação. Segundo essas entidades, a prestação de serviços de vacinação de rotina está sendo dificultada em pelo menos 68 países e deve afetar aproximadamente 80 milhões de crianças com menos de 1 ano de idade que vivem nesses países.

Tal cenário pode recolocar alguns países em níveis de imunização que existiam apenas na década de 1970. "Mais da metade (53%) dos 129 países onde havia dados disponíveis relataram interrupções moderadas a graves, ou uma suspensão total dos serviços de vacinação durante março-abril de 2020", indicaram as entidades.

"A imunização é uma das mais poderosas e fundamentais ferramentas de prevenção de doenças na história da saúde pública", disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. "A interrupção dos programas de imunização contra a pandemia da COVID-19 ameaça anular décadas de progresso contra doenças preveníveis por vacinas, como o sarampo", insistiu.

No dia 4 de junho, uma cúpula será organizada para sustentar e acelerar o trabalho de manutenção dos programas.

As razões para a interrupção dos serviços variam. Alguns pais estão relutantes em sair de casa por causa de restrições à movimentação, falta de informação ou porque temem a infecção pelo vírus da covid-19. E muitos trabalhadores da saúde não estão disponíveis devido a restrições de viagem, ou de recolocação para as funções de resposta à COVID, bem como a falta de equipamentos de proteção.

"Mais crianças em mais países estão agora protegidas contra mais doenças evitáveis por vacinação do que em qualquer momento da história", disse o Seth Berkley, CEO da Gavi, a aliança mundial de vacinas. "Devido à COVID-19, este imenso progresso está agora sob ameaça, arriscando o ressurgimento de doenças como sarampo e pólio", afirmou.

Segundo ele, se campanhas de imunização forem suspensas para evitar a contaminação da covid-19, o resultado seria uma morte ainda maior por parte das doenças que, hoje, podem ser evitadas pelas vacinas.

Nesse cenário, de cada uma morte pela covid-19 evitada, mais de cem óbitos poderiam ocorrer por doenças que poderiam ter sido evitadas pelas vacinas.

Os atrasos no transporte de vacinas estão exacerbando a situação. A UNICEF relatou um atraso substancial nas entregas de vacinas planejadas devido às medidas de bloqueio e a conseqüente queda nos vôos comerciais e disponibilidade limitada de fretamentos de jatos.

Para ajudar a mitigar isso, o UNICEF está apelando para os governos, o setor privado, a indústria aérea e outros, para liberar espaço de carga a um custo acessível para essas vacinas que salvam vidas.

"Não podemos deixar que nossa luta contra uma doença venha às custas do progresso a longo prazo em nossa luta contra outras doenças", disse Henrietta Fore, Diretora Executiva do UNICEF. "Temos vacinas eficazes contra sarampo, pólio e cólera. Embora as circunstâncias possam exigir que pausemos temporariamente alguns esforços de imunização, essas imunizações devem recomeçar o mais rápido possível, ou corremos o risco de trocar um surto mortal por outro", afirmou.

Segundo ela, seis mil crianças podem morrer por dia nos próximos seis meses se as campanhas de vacinação forem abandonadas.

Interrupções

Entre as campanhas interrompidas estão a da vacinação preventiva no caso do cólera, sarampo, meningite, poliomielite, tétano, febre tifóide e febre amarela.

Segundo a OMS, as campanhas de vacinação contra sarampo e poliomielite, em particular, foram muito afetadas, com campanhas contra sarampo suspensas em 27 países e campanhas contra a pólio suspensas em 38 países. Pelo menos 24 milhões de pessoas em 21 países de baixa renda estão em risco de falhar nas vacinas contra a pólio, sarampo, febre amarela, cólera, rotavírus, HPV, meningite A e rubéola devido ao adiamento de campanhas e introdução de novas vacinas.

No final de março, preocupada com o fato de que reuniões em massa para campanhas de vacinação incendiariam a transmissão da COVID-19, a OMS recomendou aos países que suspendessem temporariamente as campanhas preventivas enquanto avaliavam os riscos.

Jamil Chade