PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Jamil Chade


"Pessoal tenta implementar o caos" nos EUA, diz assessor de Bolsonaro

Manifestantes se ajoelham diante de oficiais da divisão do Serviço Secreto dos EUA durante protestos contra a morte de George Floyd, perto da Casa Branca em Washington DC - JONATHAN ERNST/REUTERS
Manifestantes se ajoelham diante de oficiais da divisão do Serviço Secreto dos EUA durante protestos contra a morte de George Floyd, perto da Casa Branca em Washington DC Imagem: JONATHAN ERNST/REUTERS
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

04/06/2020 13h03

Resumo da notícia

  • Arthur Weintraub sugere um novo "tribunal de Nuremberg" para julgar aqueles que se recusaram a dar cloroquina aos pacientes da covid-19.
  • Irmão do ministro da Educação, ele alerta para ameaça dos protestos e diz que existe risco de autoritarismo no Brasil pela oposição
  • Declarações foram feitas durante seminário em instituto do Itamaraty

"Estamos vivenciando nitidamente um momento extremamente autoritário" e existe uma tentativa de "implementar o caos" por meio de protestos nos EUA. Essas foram algumas das declarações feitas por Arthur Weintraub, assessor especial da Presidência da República, durante um encontro no dia 2 de junho promovido pela Fundação Alexandre de Gusmão, órgão ligado ao Itamaraty.

Ele é irmão do Ministro da Educação, Abraham Weintraub. Durante o evento, ele ainda sugere um novo "tribunal de Nuremberg" para julgar aqueles que se recusaram a dar cloroquina aos pacientes da covid-19. O tribunal foi criado na Alemanha para julgar os crimes dos nazistas.

O debate de mais de duas horas e meia era, oficialmente, sobre a "conjuntura internacional no pós-coronavírus", com Hélio Angotti Neto, diretor do Departamento de Gestão da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, e Marcelo Hermes Lima, diretor-presidente da Associação Docentes pela Liberdade.

Mas no centro da fala de Weintraub estava a ameaça que o Brasil e outros países atravessam diante dos protestos e do que ele acredita ser um fortalecimento dos movimentos "globalistas" diante da pandemia.

"Passando o momento da covid, você vê nitidamente que a mídia e a esquerda já estão fugindo do assunto. Agora estão engrenando no próximo discurso, o próximo discurso é a favor da democracia. É sempre pela coisa mais pura e incontestável. Quem pode ser à favor do racismo? Quem pode ser à favor do câncer? Quem pode ser contra a democracia. Então eles são os donos da verdade", disse.

"E eles pegam toda essa miríada de discursos e se apoderam deles. O racismo é deles. Se você disser: sou contra cotas, vão te dizer que você é racista", disse.

"E agora mudou a chave. A chave antes era covid. Eles adquiriram muito poder. Desestabilizaram as economias. Monopolizaram o discurso. Pode ver: Japão não teve lockdown, Coreia do Sul, Hong Kong", destacou.

"Agora, o mundo ocidental, tirando honrosas exceções - a Suécia, por exemplo - caiu de joelhos. Vamos ficar todos em casa. O impacto disso nas futuras gerações, endividamento, quebra de empresa, que se dane", afirmou Weintraub. Na própria Suécia, porém, questionamentos ganham força sobre a estratégia que o país usou.

Tocar o terror

No mundo pós covid, Weintraub fala em uma "mudança de chave para aplicar agora discursos sociais onde as pessoas saem às ruas".
"Eles vão pegar esses grupos de hordas que vimos, por exemplo, no Chile, onde explodiam 18 estações de metrô em 15 minutos", alertou.
Citando "trevas absolutas", o assessor de Bolsonaro destacou como seu avô esteve em campo de concentração e que dizia: "você vai perdendo a liberdade gradualmente. Não vira a chave de uma vez".

"O próximo passo que eu vejo é mudar a chave. Hoje já tem protestos em Paris. Estados Unidos, ja tentando o pessoal implementar o caos e tocar o terror. Em Curitiba, já teve nossa pequena amostra de Chile", alertou, numa referência aos protestos em Santiago em 2019. Weintraub não explicam quem é o "pessoal" tentando "implementar o caos" nos EUA.

Um dia antes de Bolsonaro chamar os manifestantes no Brasil de "terroristas", Weintraub questionou o perfil dos grupos no evento do Itamaraty. "São só homens, mão fechada e pedra na mão, descendo a porrada em todo mundo", disse, criticando a imprensa. "A máscara permanece, até porque as pessoas que atacaram não podem ser identificadas", apontou.

Em outro trecho, ele descreveu o grupo como sendo "um movimento violento", que obrigaram as "pessoas de camisa verde-amarela" a fugir.

Máscaras e Foro de São Paulo

Weintraub cita ainda o Foro de São Paulo. "Eles têm o discurso das universidades, tem o discurso da mídia que ficou bem claro agora", disse. "E vai seguir com essa pauta. Até o limite que a gente aceite. Se nos formos aceitando: põe a mascara. Isso não é uma máscara, é uma mordaça nas pessoas de bem. Para os bandidos, é para facilitar o crime", declarou.

"Eles são muito bem organizados. Têm cabeça, financiamento e tem planejamento, inteligência. No Chile, foi a inteligência para queimar 18 estações em 15 minutos", sugeriu.

Para ele, a "revolução e a resposta" a essa tendência vem do Brasil. "Temos valores. O brasileiro mostrou ao mundo que tem valores bíblicos. Você não precisa ser religioso para ter valores bíblicos", defendeu. "Como cristão, eu acredito que o Brasil foi salvo por esses valores", insistiu.

Weintraub admite que existe neste momento um "contra-fluxo" aos tais valores que ele cita. "Existe um refluxo de tentativa autoritária. Nitidamente, que acontece não só no Brasil. Mas a resposta do Brasil foi mais forte. Você também tem outros países, a Hungria", disse o assessor, citando o governo de Viktor Orban acusado dentro da Europa por minar a democracia.

Para ele, existe o risco de que haja agora uma "sequência agora de pautas, de quebra-quebra, de violência, sob os auspícios de que estamos defendendo o bem".

"Agora vamos ver a sequência da pauta globalista, progressista e esquerdista. Para mim, são uniões", disse.

Lockdown e Tribunal de Nuremberg

Weintraub ainda criticou o lockdown diante da pandemia e ironizou as pessoas que saíram aos balcões para cantar. "Acham lindo as pessoas cantando na varanda", disse.

Em nenhum momento de seu discurso ele citou que o Brasil é um dos líderes mundiais em mortes. Mas fez referências a diferentes trechos da Bíblia e a Olavo de Carvalho, algo que outros palestrantes também fizeram.

O debate da cloroquina também entrou na agenda do encontro, com todos os participantes apoiando o uso do remédio que, pelo menos por enquanto, não é recomendado pela OMS.

Weintraub chega a citar "um tribunal de Nuremberg" para julgar a "maldade que foi feita" ao não permitir que pessoas recebam o remédio.

Segundo ele, mortes poderiam ter sido evitadas.

Risco de vertente ditatorial

Ao final, ao ser questionado sobre onde achava que o Brasil estaria em cinco anos, o assessor de Bolsonaro se disse otimista. "Houve uma mudança forte no Brasil, no sentido conservador", afirmou.

Mas alertou que "vão tentar segurar isso", sem explicar quem. "Eu imagino que pode se inclinar para uma vertente mais autocrática ditatorial de esquerda. Eu não gostaria de ter que sair do Brasil", afirmou.

Mas indicou que "se (o Brasil) virar uma grande Venezuela, não da para ficar". "Seremos mortos", disse.

Hélio Angotti Neto, diretor do Departamento de Gestão da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, completou a lógica de Weintraub. "Se for por guinada ditatorial, ai é fugir ou morrer", completou.

Ao final, o moderador do debate, o diplomata Roberto Goidanich, explicou que as expressões no debate "não refletem necessariamente" a posição do Itamaraty. "Mas a profundidade (das intervenções) ajudou ao ouvinte a abrir os olhos para muitas coisas", afirmou.

Jamil Chade