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Jamil Chade

Questionada pelo Brasil, OMS vai sugerir que países também sejam examinados

29.abr.2020 - O diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante coletiva de imprensa - Pavlo Gonchar/SOPA Images/LightRocket via Getty Images
29.abr.2020 - O diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante coletiva de imprensa Imagem: Pavlo Gonchar/SOPA Images/LightRocket via Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/06/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Auditoria mostra que governos agiram de forma lenta aos alertas da agência de Saúde

Pressionada pelos governos dos EUA e do Brasil, a OMS vai sugerir que a investigação sobre como foi a resposta à pandemia também envolva uma avaliação sobre como cada governo reagiu diante do surto e dos alertas emitidos pela agência de Saúde.

Nesta terça-feira, em uma reunião ministerial, o chanceler brasileiro Ernesto Araújo criticou a OMS e indicou que o Brasil iria defender uma investigação sobre a entidade. Horas depois, foi a vez do presidente Jair Bolsonaro voltar a ameaçar retirar o país da instituição diante do que ele chamou de um comportamento de um "partido político".

Mas a suposta proposta do chanceler já foi de fato aprovada há semanas, dentro da própria OMS. Uma resolução apresentada pela UE e que teve o apoio do próprio Itamaraty foi adotada por consenso na agência de Saúde. Nela, os governos e a instituição se comprometiam a iniciar um processo de revisão sobre como havia sido a resposta à pandemia. Não há um prazo para que isso ocorra. Mas o entendimento de grande parte dos países é de que tal iniciativa será iniciada quando o surto for controlado.

Dentro da OMS, porém, vozes começam a ganhar força para que o processo não envolva apenas a resposta da entidade, considerada como lenta demais para identificar os riscos do vírus na China.

A ideia é de que, ao ser avaliada a crise, técnicos possam também estabelecer se governos deram ouvidos para os alertas realizados pela entidade e se, de fato, autoridades nacionais estavam preparadas para o surto.

Nos bastidores, o objetivo é claro: admitir os erros cometidos em Genebra pela instituição. Mas também deixar claro que parte da explicação para os sete milhões de casos é a resposta inadequada dos governos.

O caso brasileiro seria um dos mais comentados internamente. No dia 30 de janeiro, a OMS declarou a emergência global, o máximo nível dentro das regras internacionais. Mais de um mês depois, em 9 de março, o presidente brasileiro insistiu que a questão estava "superdimensionada".

Dois dias depois, a OMS declarou a pandemia global. Mas, naquele mesmo momento, Bolsonaro indicou outras gripes mataram mais que a covid-19. Uma semana depois, Bolsonaro chamou de "histeria" o assunto.

Quase dois meses depois do alerta de emergência da OMS, em 24 de março, o presidente brasileiro insistiu em termos como "gripezinha" e "resfriadinho". No dia 12 de abril, ele ainda indicou que o vírus estava "indo embora".

Hoje, o Brasil supera os EUA na contagem de novos casos nas últimas duas semanas. Nos últimos sete dias, o Brasil também supera os americanos em mortes neste período. Dentro da OMS, a constatação é de que o país se consolida como o novo epicentro da crise internacional.

Resultado preliminar

Numa primeira auditoria realizada sobre o trabalho da OMS, técnicos concluíram há cerca de um mês que o sistema de alerta da agência contra surtos internacionais revelou seus limites. Mas o trabalho também constatou que governos também terão de rever suas estruturas e a forma de lidar com as indicações da agência.

Na avaliação dos especialistas, não se pode julgar a OMS sem levar em conta as regras sob as quais a entidade está submetida. Essas regras foram criadas em 2005 e regulam a forma pela qual a agência pode agir e lançar os alertas.

De acordo com um levantamento inicial, a OMS de fato lançou sua emergência internacional no dia 30 de janeiro, recomendando um amplo pacote de medidas. Mas a resposta dos governos foi variada. Isso, segundo a auditoria, levantou questões se Estados consideram que a declaração de emergência é um mecanismo suficiente para os levarem a agir.

Uma das recomendações seria a criação de uma espécie de escala de emergência, com níveis diferenciados. Outra sugestão é para que o processo de declaração de emergência seja mais transparente.

Mas também passa a ser necessários que as pessoas nos diferentes governos que recebam o alerta sejam capazes de serem escutados pelo restante da administração.

Lentidão no compromisso e na reação dos governos

A auditoria também revelou a existência de relatórios fracos por parte dos governos, impossibilitado a OMS de dar uma resposta completa. O informe também sugere que governos reavaliem o papel da OMS na recomendação de viagens ou suas restrições, além de medidas sobre portos, aeroportos e fronteiras.

Mas a auditoria ainda aponta que, ao avaliar os relatórios de cada um dos países sobre as medidas de resposta, muitos estavam "despreparados e tiveram dificuldades em implementar medidas em resposta à covid-19". O grupo sugere que a OMS ajude países a desenvolver mecanismos de resposta.

A lentidão dos governos também foi destacada pela auditoria. "A resposta do Secretariado da OMS à covid-19 foi mais rápida do que para as epidemias de Mers ou Sars, mas isto não provocou uma ação igualmente rápida por parte de todos os Estados Membros", constatou a auditoria.

De acordo com a auditoria, o sistema precisa ser reformado. Mas os governos também vão precisar repensar suas ações.