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Jamil Chade


"Precisamos ser sérios", afirma Tedros ao comentar teste de Bolsonaro

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

07/07/2020 12h47

O teste positivo de Jair Bolsonaro à covid-19 é usado na OMS como um alerta para que governos assumam a responsabilidade pela resposta à pandemia, que superem suas divisões políticas e que admitam suas vulnerabilidades. Durante a coletiva de imprensa da agência nesta terça-feira, em Genebra, a cúpula da entidade foi clara em reforçar a gravidade da crise.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, insistiu que a situação no Brasil não é boa. "Precisamos ser sérios. Ninguém está seguro", disse.

Entre os especialistas da agência, não havia qualquer tipo de tom de "vingança" ao comentar a situação do presidente brasileiro que, por meses, insistiu que se tratava apenas de uma "gripezinha" ou "histeria". Para a OMS, seu discurso de minimizar a crise contribuiu para a proliferação de casos no Brasil.

Durante a coletiva de imprensa, porém, Michael Ryan, diretor de operações da OMS, fez questão de desejar saúde ao presidente. "Desejamos o melhor e completa recuperação dessa doença. Outros líderes tiveram essa experiência", disse.

"Acho que (isso) mostra a realidade desse vírus. Ninguém é especial nesse aspecto. Todos estamos potencialmente expostos ao vírus e o vírus não sabe se somos príncipes ou pobres. Somos todos vulneráveis", afirmou. "O que mostra é nossa vulnerabilidade coletiva a essa doença", afirmou.

Segundo ele, o Brasil é uma "grande nação que enfrenta um enorme desafio em um momento difícil". "Os números se estabilizaram nos últimos dias", disse. Mas, segundo ele, sistema de saúde continua sob pressão, ainda que estejam lidando com a crise.

"Em muitos casos, (o sistema de saúde) está quase em situação crítica. O Brasil enfrenta muitos desafios. Esperamos que o Brasil continue a dar resposta, no âmbito federal e estadual", disse.

Ele diz "confiar que, se Brasil conseguir colocar toda comunidade junta, conseguirá superar a crise". "Mas a mensagem é de que todos somos vulnerável", insistiu.

Tedros também desejou "rápida recuperação" ao presidente, que já o acusou no passado de falhar na resposta à pandemia. "Espero que os sintomas sejam suaves e que volte ao trabalho o mais rápido possível", disse o etíope, fazendo um gesto de diplomacia para tentar reconstruir relações com o Brasil.

Mas ele também aproveitou para mandar seu recado. "Já temos dito há muito tempo: o vírus é muito perigoso, é o inimigo público número 1", disse. "Ele se move rápido e mata. Por isso avisamos o mundo", disse.

"Somos todos vulneráveis e por isso dizemos que é um inimigo da humanidade e que humanidade precisa estar juntos para lutar", insistiu.

"É importante entender a gravidade desse vírus"; disse. "Precisamos ser sérios. Nenhum país está imune, ou seguro, e nenhum indivíduo está a salvo. Mas, dito isso, esperamos que sua excelência o presidente esteja bem e se recupere rapidamente", afirmou Tedros. "Espero que os sintomas sejam leves e sua excelência esteja de volta à ativa o quanto antes para apoiar seu país", disse Tedros.

Nos bastidores da instituição, não há necessidade de mais provas da seriedade do vírus, que já matou mais de 500 mil pessoas. Mas a esperança, dentro da OMS, é de que a contaminação do presidente seja utilizada no país para conscientizar a população e que não seja manipulada politicamente.

Bolsonaro não é o primeiro líder a testar positivo. Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido, também foi diagnosticado e chegou a ser levado para a UTI.

Jamil Chade