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Itamaraty usa "likes" para justificar palestras de olavistas e monarquistas

Chanceler Ernesto Araújo destacou números de redes sociais de eventos promovidos pelo Itamaraty - MARCELO CAMARGO/AG. BRASIL
Chanceler Ernesto Araújo destacou números de redes sociais de eventos promovidos pelo Itamaraty Imagem: MARCELO CAMARGO/AG. BRASIL
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/09/2020 12h39

Resumo da notícia

  • Em documentos obtidos pelo UOL, o Itamaraty justifica a parlamentares convites para palestras do ministério
  • Entre os convidados, estiveram blogueiros investigados pelo inquérito das fake news no STF e monarquista
  • Chanceler Ernesto Araújo destacou número de "likes" das conferências e defendeu relevância para sociedade

O ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, justificou a escolha de conferencistas da Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) com um argumento pouco acadêmico: os números de "likes" que as palestras geraram nas redes sociais. Entre eles estão blogueiros bolsonaristas sob investigação do STF.

Ao longo dos últimos meses, a entidade ligada ao Itamaraty promoveu uma série de debates sobre a política externa. Temas da agenda do atual governo, como a crítica ao globalismo, passaram a fazer parte do calendário. E, para discursar sobre tais assuntos, nomes com Bernardo Kuster e Allan dos Santos foram selecionados — ambos estão entre blogueiros sob investigação do STF num inquérito sobre fake news.

Kuster é diretor do site "Brasil Sem Medo", ligado ao filósofo Olavo de Carvalho, e foi alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal. Allan dos Santos deixou o Brasil alegando "questões de segurança".

Depois das revelações sobre a lista dos convidados, a bancada do PSOL na Câmara dos Deputados enviou um requerimento para que o governo explicasse a escolha dos palestrantes. E, numa reposta no dia 2 de setembro, Araújo justificou a motivação na escolha dos nomes.

Segundo ele, os participantes de eventos são definidos "conforme o potencial interesse e relevância para a sociedade brasileira" e que a "FUNAG se esforça para que seus eventos contribuam para o pluralismo do pensamento [...], o que significa também incluir visões conservadoras".

No documento a que o UOL teve acesso, o currículo de cada um deles é apresentado, assim como a lista de mais de 400 convidados ao longo dos últimos 18 meses.

Chanceler cita evento com 122 mil visualizações

O ministro afirma ainda que "o interesse do público tem sido crescente". Para demonstrar isso, ele cita dados de visualizações de vídeos e "likes" e "dislikes" para atestar a "alta receptividade da sociedade" aos temas e palestrantes escolhidos.

De acordo com ele, em 2020, conferências virtuais tiveram mais de 250 mil visualizações, com cerca de 30 mil avaliações positivas (likes) e 1,2 mil avaliações negativas (dislikes).

Ele cita ainda o caso de um seminário sobre globalismo, em junho de 2019. Desde aquele momento, foram 122 mil visualizações, com 11 mil likes e 269 desaprovações.

O chanceler ainda indicou que respeita a liberdade de expressão dos convidados.

O príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança - Folhapress - Folhapress
O príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, que afirmou que floresta tropical não pega fogo "nem com lança-chamas"
Imagem: Folhapress
Monarquista falou em conferência paga pela República

Outra questão apresentada pelo PSOL se referira ao fato de o Itamaraty ter convidado o líder monarquista Bertrand de Orleans e Bragança como conferencista de um evento sobre conjuntura internacional pós-coronavírus.

Nos materiais de divulgação, o governo o apresentava como Sua Alteza Real e Imperial - S.A.I.R. Numa República, porém, tal título não existe.

O Itamaraty disse que não foi consultado. Mas Araújo, ainda assim, indicou que "não parece haver qualquer problema na utilização do tratamento 'S.A.I.R. à Dom Bertrand de Orleans e Bragança, que como tal se identifica".

Ele defendeu as qualificações do convidado: "é escritor e conferencista que se dedica a estudos sobre questões brasileiras há várias décadas", afirmou.

Brasil "não tem problema racial", disse Dom Bertrand

Uma vez mais, o chanceler recorreu à audiência na internet e o número de "likes" para justificar a escolha. "A conferência de Dom Bertrand contribuiu para promover a reflexão e o pluralismo de visões na sociedade brasileira", disse.

"Os vídeos de sua conferência, em apenas um mês, registraram cerca de dez mil visualizações, mais de 1.600 aprovações e somente 83 reprovações", escreveu.

Segundo Araújo, "esses dados indicam que sua conferência despertou interesse entre cidadãos brasileiros que buscam refletir sobre múltiplas ideias e pensamentos".

Em pleno debate sobre a violência policial e os protestos contra o racismo no mundo, o convidado usou seu palanque no Itamaraty para dizer que o Brasil "não tem problema racial".

"Estão tentando criar esse problema", disse. "Aqui, todos nos damos bem", garantiu. Ao falar das qualidades do país, ele citou a existência de um povo "pacífico", mas também marcado pela "doçura e lealdade".

O convidado foi apresentado como uma pessoa que descende da casa real francesa, austríaca e portuguesa, além de uma "longa tradição de heróis, reis e santos".

Entre seus feitos está ainda a publicação de um livro sobre a "psicose ambientalista", numa crítica ao movimento verde. Na mesma palestra, ele ainda afirmou que a floresta tropical não pegava fogo, nem com "lança-chamas".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL