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OMS: mundo terá de esperar até 2022 para imunização ampla da sociedade

Pesquisador russo mostra a vacina desenvolvida no Instituto Gamaleya - Reuters
Pesquisador russo mostra a vacina desenvolvida no Instituto Gamaleya Imagem: Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/09/2020 05h04Atualizada em 09/09/2020 17h00

Resumo da notícia

  • Agência diz que segurança não será comprometida na busca por uma vacina
  • OMS alerta que pessoas terão de "manter disciplina" até que vacina chegue ao mercado
  • "Cenário otimista" aponta para as primeiras doses, em quantidades limitadas, em meados de 2021

Uma imunização ampla das populações do mundo contra a covid-19 e uma mudança no impacto da doença levarão até 2022 para ocorrer. O alerta foi feito pela OMS na manhã desta quarta-feira, num recado claro para que autoridades e populações continuem a adotar medidas de precaução e distanciamento social.

Nesta terça-feira, a farmacêutica AstraZeneca suspendeu os testes de estágio final de sua candidata a vacina contra a covid-19 após uma suspeita de "reação adversa séria" em um participante do estudo. A vacina, que é desenvolvida em parceria com a Universidade de Oxford, é testada no Brasil e em outros países.

Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS, insistiu já na semana passada que "nenhuma vacina será distribuída antes que reguladores, governos e a OMS estejam seguras de que o produto atingiu os padrões mínimos de eficácia e segurança".

Agora, seu recado foi para alertar sobre a dificuldade que será para que o produto atinja uma proporção maior da população e gere uma imunidade de rebanho. "Muitos acham que a vacina é a bala de prata, que vai chegar no dia 1 de janeiro e que vai, basicamente, resolver os problemas do mundo", disse a cientista. "Não vai ocorrer assim", declarou.

Segundo ela, os primeiros resultados dos testes clínicos devem estar prontos entre o final do ano e o início de 2021. Mas, depois disso, há ainda o período de avaliação e licenciamento, seguido ainda pela produção e distribuição.

"Estamos olhando para meados de 2021 como um cenário otimista para a chegada de doses limitadas para os países", disse Soumya.

De acordo com ela, essas primeiras doses devem ir para os profissionais de saúde, seguido por idosos e doentes crônicos. Só então haverá uma ampliação do processo. "Lentamente, você vai cobrindo o resto da população e isso vai levar um par de anos", disse.

Até la, a representante da OMS insiste que o mundo vai precisar de medidas de precaução e de saúde que mostraram trazer resultados.

"É importante que as pessoas saibam que, quando a vacina chegar, vai levar tempo até que a produção seja ampliada até que todos ou pelo menos 60% ou 70% da população consigam a imunidade da qual falamos, a imunidade de rebanho, que realmente pode desacelerar a transmissão", explicou a cientista-chefe da OMS.

"Não estamos falando em erradicar o vírus. Mas reduzir o impacto que hoje tem na sociedade e nas vidas", insistiu Soumya. "Isso vai levar certamente até 2022 para ver essa mudança ocorrer. Até la, as pessoas precisam ser disciplinadas. Essa é a única solução", completou.

Não abre mão de segurança

Soumya ainda mandou um outro recado, desta vez a governos que estejam tentando acelerar processos de aprovação de vacinas.

Segundo ela, "todos precisam entender que não é por a OMS falar em acelerar processos que vamos comprometer a segurança" dos produtos. "Ainda precisamos seguir regras do jogo, precisa passar por testes clínicos para saber eficácia e segurança", disse.

De acordo com Soumya, mesmo depois do licenciamento, haverá um monitoramento e coleta de dados sobre a vacina. "Há um sistema estabelecido e isso será seguido", garantiu.

Na OMS, acelerar a chegada de uma vacina significa harmonizar padrões regulatórios e investir na fabricação, antes mesmo de um resultado final. Mas não abandonar os testes necessários.

Dentro da agência mundial, um processo de aprovação também ocorrerá e um grupo de especialistas independentes avaliará cada um dos produtos com base em dados científicos, capacidade de produção, preço, e as dificuldades de estocagem.

Soumya acredita que as doses poderão custar entre US$ 20 e US$ 30 e admite que, hoje, o mundo não conta com a capacidade de produção necessária para abastecer todos que necessitarão de vacinas. "Essa é a primeira vez que o mundo vai precisar de bilhões de doses", disse.

Mariângela Simão, vice-diretora da OMS, foi também clara: "a doença não vai acabar tão cedo".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL