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Jamil Chade

China reconhece vitória de Biden e Brasil aprofunda seu isolamento

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

13/11/2020 05h34

A China tomou a decisão, nesta sexta-feira, de reconhecer a vitória de Joe Biden nas eleições americanas, aprofundando o isolamento do Brasil como um dos raros países a manter um silêncio total sobre a eleição americana. Atém do governo de Jair Bolsonaro, México, Coreia do Norte e Rússia ainda não felicitaram o vencedor democrata contra Donald Trump.

"Respeitamos a escolha do povo americano", afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin. "Congratulamos Biden e Harris", completou. Apesar do reconhecimento, Pequim fez referência ao processo americano e deixou claro que "o resultado será confirmado de acordo com as leis e procedimentos dos EUA".

A decisão de Pequim ocorre depois que, nos EUA, funcionários eleitorais afirmaram que a votação em 2020 foi a "mais segura da história americana", rejeitando as alegações de fraude.

"Não há provas de que qualquer sistema de votação tenha eliminado ou perdido votos, alterando os votos, ou que tenha sido de alguma forma comprometido", anunciou a comissão formada pelas autoridades eleitorais. Sem provas, Trump disse que 2,7 milhões de votos a seu favor tinham sido "apagados". Missões de observadores internacionais tampouco identificaram qualquer tipo de fraude.

Sob Trump, a relação entre a China e os EUA ganhou um contorno de guerra comercial. A Casa Branca ainda qualificou Pequim como uma "ameaça à segurança nacional" e passou a atuar contra empresas de tecnologia do país asiático.

Biden já deu indicações de que vai manter a pressão sobre a China, ainda que analistas apontem que ele deve incluir temas de direitos humanos na agenda bilateral.

Reconhecimento de aliados e adversários de Trump

Biden já tinha sido reconhecido por praticamente todas as grandes economias do mundo e, nesta semana, passou a manter conversas telefônicas com vários dos líderes internacionais. Ele ainda telefonou para o papa Francisco para tratar de temas sociais e meio ambiente.

Mesmo tradicionais aliados de Trump, como Índia, Israel e Polônia, adotaram uma postura pragmática e acenaram seu reconhecimento ao presidente eleito Joe Biden.

Até mesmo as sempre cautelosas entidades internacionais optaram por saudar Biden, entre elas a ONU e a OMS.

Pólvora

No Brasil, conforme a coluna revelou na semana passada, o Itamaraty adotou uma postura de manter seu apoio a Donald Trump e repetir sua tese de que houve fraude na eleição. Para negociadores estrangeiros, o não reconhecimento de Biden por parte do Brasil não tem qualquer impacto no destino da eleição nos EUA e é irrelevante no cenário internacional. Mas poderá ter um impacto profundo para o futuro das relações entre os dois países.

No exterior e mesmo dentro da diplomacia brasileira, foi tratado com ironia e desprezo o comentário de Bolsonaro sobre a necessidade de usar "pólvora" com Biden.

Um dos pontos de atrito promete ser a agenda climática. Laurence Tubiana, CEO da European Climate Foundation e uma das arquitetas da elaboração do Acordo de Paris, destacou o impacto que Biden terá no restante do mundo. "O Brasil e muitos outros serão impactados pelo posicionamento de Biden", disse.

Segundo ela, a atitude de Trump em sair do Acordo de Paris deixou os europeus "sozinhos" na tentativa de manter a agenda internacional sobre as questões climáticas. Para a negociadora, Trump causou um "efeito dominó". "Vimos as consequências disso no Brasil, que era um país ativo na questão ambiental", completou.