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Jamil Chade

Brasil apoia EUA em troca de cargo, mas é preterido em órgão internacional

28.jun.2019 - Jair Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump, posam para foto durante o Encontro do G20 - Reprodução/Twitter/@jairbolsonaro
28.jun.2019 - Jair Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump, posam para foto durante o Encontro do G20 Imagem: Reprodução/Twitter/@jairbolsonaro
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

05/12/2020 04h00

A opção do governo Jair Bolsonaro por apoiar num organismo internacional um candidato sugerido pela administração de Donald Trump — e abrir mão de apoiar um nome brasileiro — resulta num fiasco político e diplomático para o país.

O centro do debate era a sucessão na direção da Organização Mundial de Propriedade Intelectual, um palco privilegiado na questão de acesso a remédios, tecnologia e inovação, e um local tradicional da disputa entre países emergentes e ricos sobre patentes.

No início do ano, a entidade passou por eleições. O brasileiro José Graça Aranha, ex-presidente do INPI, mobilizou seus contatos para se apresentar como candidato. Anos antes, ele também concorria ao cargo e perdeu por apenas um voto de diferença para o australiano Francis Gurry.

Em 2020, o brasileiro reuniu recomendações de todos os principais partidos políticos nacionais e foi sugerido inclusive pela Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Deputados.

Mas Itamaraty não concedeu a Graça Aranha nenhum momento na agenda do chanceler Ernesto Araújo para um encontro.

Diante do bloqueio no Itamaraty, o brasileiro com ampla circulação internacional escreveu diretamente ao presidente Jair Bolsonaro, indicando que iria se apresentar para o cargo internacional.

Brasília, porém, daria outra instrução aos seus diplomatas em Genebra. O voto brasileiro na eleição deveria ir para o candidato de Cingapura, Daren Tang. Ele era o preferido do governo americano de Donald Trump.

A OMPI, diante do embate da tecnologia, havia se transformado numa das trincheiras da guerra comercial entre EUA e China. Washington, porém, insistia que não poderia perder a influência no organismo internacional considerado como estratégico.

O Brasil, assim, seguiu a orientação da Casa Branca e apoiou Tang. O asiático acabou ganhando, superando um candidato apoiado por Pequim. Mas, nos bastidores, a esperança era de que o novo diretor asiático retribuiria o apoio do Itamaraty oferecendo um cargo na direção a um brasileiro.

Brasil fica sem cargo. EUA ganham uma vaga

Para os oito cargos na cúpula, um total de 49 nomes foram indicados por diferentes governos. Mas, no lugar de escolher um brasileiro, Tang anunciou que nomearia o colombiano Marco Aleman para o posto de diretor-geral assistente. A gestão ainda será composta por uma americana, uma francesa e um chinês.

O gesto do novo diretor deixou o Itamaraty insatisfeito. Nesta semana, ao dar posse aos demais administradores, Tang ouviu da delegação brasileira um discurso no qual solicitava que as escolhas fossem feitas de uma forma mais transparente e com mais consultas com os governos.

Em resposta à coluna, Tang preferiu não comentar a insatisfação do Brasil e nem respondeu se ele havia feito uma promessa de cargos ao Brasil. Segundo ele, todos os nomes que assumiram a direção vão "trabalhar para todos os governos".

Procurado para comentar o fiasco diplomático, o Itamaraty sequer respondeu à coluna.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL