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Jamil Chade

Representante da ONU ataca gestão da pandemia por Bolsonaro: "devastador"

6.mar.2019 - Chefe de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Michelle Bachelet - Denis Balibouse/Reuters
6.mar.2019 - Chefe de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Michelle Bachelet Imagem: Denis Balibouse/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/12/2020 07h28

Resumo da notícia

  • Michelle Bachelet criticou atitude negacionista e alertou que tal comportamento "não funciona"
  • Para marcar dia internacional de direitos humanos, ela ainda alertou sobre o impacto da politização da pandemia
  • Para a chilena, a decisão de minimizar a gravidade da covid-19 teve um impacto negativo na resposta do estado à crise sanitária

Michelle Bachelet, alta comissária da ONU para Direitos Humanos, critica a gestão da pandemia no Brasil, ataca o comportamento do governo em temas de proteção ambiental e alerta que autoridades precisam reconhecer a existência do racismo no país. Para ela, a atitude das autoridades de minimizar a gravidade da pandemia teve um impacto negativo na resposta do estado à crise.

Numa alocução, ela ainda condenou a politização da pandemia e questionou líderes que, mesmo hoje, insistem em minimizar a doença. Para Bachelet, tal atitude é "irresponsável".

A chefe de direitos humanos da ONU concedeu uma entrevista coletiva nesta quarta-feira, às vésperas do dia internacional dos direitos humanos. Em resposta a uma pergunta da coluna sobre a pandemia no Brasil, ela não mediu palavras para alertar sobre a situação brasileira.

Sobre a pandemia, Bachelet alertou sobre a dimensão da crise sanitária no Brasil. "A covid-19 teve um impacto devastador no Brasil", disse. Ela admite que a situação não foi positiva em grande parte da América Latina, com repercussões econômicas e sanitárias profundas. "Mas no Brasil, em especial, vimos um impacto desproporcional em grupos em situação vulnerável, como pessoas vivendo na pobreza, afrodescendentes, indígenas, LGBTI, pessoas privadas de sua liberdade e pessoas vivendo em locais informais", disse.

"É fundamental garantir comunicação institucional confiável sobre o vírus e seu impacto", defendeu Bachelet. Ela criticou "declarações de líderes subestimando o impacto do vírus". Segundo a chilena, isso teve um "impacto negativo na resposta institucional à pandemia".

Numa segunda pergunta, também por uma jornalista brasileira, Bachelet voltou a ser questionada sobre o comportamento de Bolsonaro. Ela explicou que, tradicionalmente, prefere não dar nomes em suas declarações. "Mas vou ter de dizer que em qualquer país do mundo onde líderes negaram a existência da covid-19 e as evidências científicas, eles tiveram um efeito devastador. Isso ocorreu em muitos países. Não apenas no Brasil. Mas também no Brasil", disse.

"Isso é terrível. Líderes precisam dar exemplo. Precisam guiar as pessoas", afirmou, numa referência às recomendações da OMS sobre o uso de máscaras, distanciamento social e outros aspectos científicos.

"Isso realmente ajuda a prevenir a disseminação do vírus", disse. "Se líderes não fazem isso, não darão o melhor exemplo. Primeiro, vão se infectar, como de fato ocorreu para alguns. Mas, em segundo lugar, não ajudam a resposta do país a uma pandemia como a covid-19. Portanto, eu acho que qualquer líder que negue a pandemia e a ciência não é o melhor (caminho). Não vai funcionar", insistiu.

Bachelet ainda fez uma comparação entre a situação africana e sul-americana. "Às vezes, países não têm todos os recursos econômicos ou hospitais não têm todas as possibilidades. Mas quando se da uma orientação clara para o povo, eles podem evitar contrair a doença", disse.

"Na África, há uma falta de recursos. Mas com a experiência do ebola, a comunidade se organizou e soube responder", disse Bachelet, apontando para a existência de um menor número de casos no continente africano.

"Espero que líderes no Brasil deem exemplo para o povo. Isso é muito importante", afirmou.

Segundo ela, as pessoas precisam estar envolvidas nas decisões e entender. "Elas precisam de confiança nas instituições. Espero que no Brasil líderes possam ser mais abertos o que a ciência nos diz", completou.

Racismo estrutural e destruição da Amazônia

Bachelet ainda traçou um cenário preocupante sobre a situação do racismo no Brasil, qualificando-o como "estrutural". Para ela, está na hora de as lideranças no país reconhecerem sua existência como primeiro passo para poder lidar com o fenômeno.

Suas críticas foram feitas depois que, diante da morte de uma pessoa num Carrefour, tanto o presidente Jair Bolsonaro como o vice-presidente Hamilton Mourão indicaram que não existia racismo no país.

"Estou preocupada com o racismo e discriminação estrutural e violência que persiste", disse Bachelet. Segundo ela, dados oficiais mostram que afrobrasileiros são afetados de forma desproporcional por homicídios e que essa população, incluindo mulheres, está super-representada nas prisões.

Para Bachelet, afrobrasileiros "estão excluídos ou são quase invisíveis em tomadas de decisão e em instituições".

"Representantes do governo têm uma responsabilidade especial em reconhecer o problema do racismo persistente no País. Isso é o primeiro passo para solucioná-lo", afirmou.

Ela citou especificamente o caso de João Alberto Silveira Freitas, morto por seguranças privados em um Carrefour no Rio Grande do Sul.

"O estado tem o dever de prevenir e lidar com as violações de direitos humanos", disse. "Mas empresas também têm a responsabilidade de respeitar direitos humanos em suas operações e em suas relações comerciais", afirmou. "Isso envolve identificar e mitigar riscos de direitos humanos, inclusive na contratação de seguranças privados", apontou.

Bachelet ainda completou sua avaliação sobre o Brasil alertando sobre o fato de estar "preocupada com a destruição ambiental na Amazônia e no Pantanal". O mecanismo que existe atualmente para garantir a proteção do meio ambiente no país precisa ser fortalecido e financiado de forma adequada", defendeu.

"A atuação independente da sociedade civil trabalhando na Amazônia sem a interferência indevida do governo precisa ser garantida", indicou, num recado aos gestos do governo para enquadrar o trabalho de ongs.

Politizar a pandemia é "irresponsável e condenável"

Antes de responder às perguntas dos jornalistas, em um discurso, ela já havia atacado de uma forma geral governos que optaram por se recusar a reconhecer a dimensão da crise. Mas, neste caso, apenas fazendo declarações genéricas. "Muitos governos não agiram de forma suficientemente rápida ou decisiva para deter a propagação da COVID-19. Outros se recusaram a levá-la a sério, ou não foram totalmente transparentes sobre sua propagação", denunciou, sem citar nomes.

"Surpreendentemente, mesmo até hoje, alguns líderes políticos ainda estão minimizando seu impacto, desacreditando o uso de medidas simples como o uso de máscaras e evitando grandes reuniões. Algumas figuras políticas estão até mesmo falando casualmente de "imunidade do rebanho", como se a perda de centenas de milhares de vidas fosse um custo que pode ser facilmente arcado em prol de um bem maior. Politizar uma pandemia desta forma é, além de irresponsável, totalmente condenável", atacou.

"Pior ainda, em vez de nos reunir, a resposta à pandemia levou, em alguns lugares, a uma maior divisão. Evidências e processos científicos foram descartados, e teorias conspiratórias e desinformação foram semeadas e permitidas - ou encorajadas - a prosperar", alertou a ex-presidente do Chile.

Para Bachelet, um dos impactos desse comportamento de líderes na crise sanitária será sentida na confiança entre o cidadão e o estado.

"Estas ações mergulharam uma faca no coração daquele bem mais precioso, a confiança", disse. "Confiança entre as nações, e confiança dentro das nações. Confiança no governo, confiança nos fatos científicos, confiança nas vacinas, confiança no futuro. Se quisermos criar um mundo melhor após esta calamidade, como sem dúvida nossos ancestrais fizeram após a Segunda Guerra Mundial, temos que reconstruir essa confiança uns nos outros", pediu.

Ela ainda destacou como a covid-19 mostrou a incapacidade da sociedade em defender direitos básicos. "Não apenas porque não pudemos, mas porque negligenciamos - ou optamos por não fazê-lo", afirmou.

"O fracasso de muitos países em investir o suficiente na saúde universal e primária, de acordo com o direito à saúde, tem sido exposto como extremamente míope", afirmou. Para ela, se tais medidas preventivas exigiam investimentos elevados, a falta de ação se provou ainda mais caro.

Pobres estão mais pobres

Bachelet ainda destacou como, durante a pandemia, uma vez mais as populares mais vulneráveis foram as mais atingidas. "Tem sido chocante, mas infelizmente não surpreendente, ver a desproporcionalidade da COVID-19 em indivíduos e grupos que são marginalizados e sofrem discriminação - em particular pessoas de ascendência africana, pessoas de minorias étnicas, nacionais ou religiosas, e povos indígenas", disse.

"Este tem sido o caso em alguns dos países mais ricos do mundo, onde a taxa de mortalidade de algumas minorias raciais e étnicas tem sido até três vezes maior do que a da população em geral", destacou.

"Quando a COVID-19 atingiu, membros de grupos discriminados e povos indígenas foram expostos em excesso ao contágio devido a seu trabalho mal remunerado e precário em indústrias específicas. Muitas das pessoas que de repente começamos a reconhecer e a referir como essenciais - trabalhadores da saúde, limpadores, trabalhadores do transporte, funcionários de lojas - vêm de tais minorias", apontou. "Nos últimos 11 meses, os pobres se tornaram mais pobres", disse.


Vacina contra pobreza e fome se chama direitos humanos

Para ela, existe um real de que avanços sociais obtidos nas últimas décadas sejam desfeitos diante da pandemia e se existe uma vacina contra o vírus, a vacina contra a desigualdade e pobreza se chama direitos humanos.

"Espera-se que as vacinas médicas que estão sendo desenvolvidas acabem por nos entregar da COVID-19, embora ainda não por muitos meses", disse. "Mas elas não evitarão ou curarão a devastação sócio-econômica que resultou da pandemia, e ajudaram a sua propagação", alertou.

"Mas existe uma vacina contra a fome, a pobreza, a desigualdade e possivelmente - se for levada a sério - contra a mudança climática, bem como contra muitos outros males que a humanidade enfrenta. É uma vacina que desenvolvemos na sequência de choques globais maciços anteriores, incluindo pandemias, crises financeiras e duas Guerras Mundiais. O nome dessa vacina é direitos humanos", completou.