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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Mesmo sem Ernesto, Brasil não abandonará "aliança antiaborto" na ONU

O ministro de Relações Exteriores,  Ernesto Araújo, e o deputado Eduardo Bolsonaro durante audiência pública na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.   - Marcelo Camargo / Agência Brasil
O ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o deputado Eduardo Bolsonaro durante audiência pública na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

06/04/2021 04h00

A saída de Ernesto Araújo do cargo de ministro das Relações Exteriores e a posse, nesta terça-feira (6), de Carlos França não mudarão a participação do Brasil em temas relacionados com o acesso de mulheres à educação sexual ou debates sobre direitos reprodutivos.

De acordo com o Ministério da Família, Mulheres e Direitos Humanos, comandado por Damares Alves, o Brasil seguirá formando parte do Consenso de Genebra, um grupo de países criado no ano passado e que tinha como objetivo lutar contra qualquer ação na ONU (Organização das Nações Unidas), na OMS (Organização Mundial da Saúde) e em outros organismos internacionais que permita a introdução de direitos reprodutivos ou acesso à educação sexual em textos oficiais, resoluções e planos.

Originalmente, o bloco foi idealizado pelos Estados Unidos de Donald Trump e incluía países ultraconservadores como Polônia, Hungria e vários regimes do mundo árabe, além do Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido). O argumento central do grupo era de que deveriam formal uma frente para lutar contra projetos que pudessem ampliar direitos das mulheres. O temor era de que, por meio desses termos, o aborto fosse introduzido, algo que os demais países negam ser o plano.

A derrota eleitoral de Trump esvaziou o grupo. Mas, conforme a coluna revelou com exclusividade, conselheiros do ex-presidente americano enviaram emails para orientar os membros do grupo a continuar o trabalho e centralizar a coordenação no governo brasileiro. Segundo o email, havia sido o Brasil quem ofereceu liderar o processo.

A queda de Ernesto Araújo representou, de uma certa forma, um golpe contra a ala mais radical do bolsonarismo. Mas, segundo a coluna apurou, temas que eram "bola dividida" com Damares Alves dificilmente mudarão.

"Sobre o Consenso de Genebra, o Estado brasileiro segue fazendo parte da iniciativa", declarou a pasta da ministra, influente entre a ala evangélica no governo. Procurado, o Itamaraty não respondeu sobre seu posicionamento.

Nas últimas semanas, a mera existência do grupo tem sido alvo de ataques por partes de outros governos. Numa reunião em março, a delegação da França afirmou estar "chocada" com a posicionamento dos países que fazem parte do Consenso de Genebra, minando os direitos das mulheres.

Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, não apenas retirou o governo americano do projeto como fez questão de anunciar que estava retomando o financiamento a projetos e ONGs pelo mundo que garantam às mulheres maior acesso à educação sexual e direitos reprodutivos.

De acordo com um levantamento do próprio governo americano, ONGs que lidam com programa de direitos reprodutivos deixaram de receber US$ 153 milhões de ajuda da Casa Branca. O levantamento também revelou como, em 54 ocasiões, as autoridades de Washington rejeitaram dar recursos para entidades por conta de suas políticas sobre aborto.