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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Indústria prevê 10 bi de doses até final do ano; mas lei americana é ameaça

Joe Biden  - Getty Images
Joe Biden Imagem: Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

23/04/2021 09h20

Resumo da notícia

  • Marco de 1 bilhão de vacinas foi atingido em abril e setor farmacêutico aposta em produção acelerada a partir de maio
  • Governos de países em desenvolvimento se queixam de que, por enquanto, grande parte da produção foi destinada para países ricos
  • De cada 4 pessoas nos países ricos, 1 já foi vacinada. Nos países mais pobres, a proporção é de 1 para cada 500 habitantes

As maiores empresas farmacêuticas do mundo estimam que terão condições de produzir 10 bilhões de vacinas contra a covid-19 até o final do ano. Mas alertam para a necessidade de que governos retirem medidas de controle de exportação de insumos que poderiam ameaçar a produção. A principal crítica se refere às leis americanas impedindo que produtos deixem o mercado doméstico e afetando o abastecimento de itens fundamentais para a fabricação dos imunizantes pelo mundo.

Pressionadas por conta de uma posição de rejeitar a quebra de patentes e criticada pela demora no abastecimento de vacinas pelo mundo, as farmacêuticas insistem que tal previsão de produção é possível graças a acordos de fabricação fechados pelo mundo, tanto com governos como com institutos públicos.

A previsão inicial do setor privado era de que 14 bilhões de doses poderiam ser fabricadas. Mas a Federação Internacional de Fabricantes e Associações Farmacêuticas (IFPMA) admite que os obstáculos foram maiores do que o previsto e que a meta teve de ser reduzida para 10 bilhões de doses.

Em teoria, isso seria ainda suficiente para imunizar 70% da população mundial. O problema é que o abastecimento tem ocorrido de forma desigual. Muitos dos países ricos deles terão doses suficientes para 100% de suas populações já no início do segundo semestre, enquanto dezenas de países em desenvolvimento continuam sem sequer conseguir atingir 20% de suas populações.

De acordo com os dados oficiais da OMS, o mecanismo de distribuição de vacinas aos países mais pobres conseguiu fornecer apenas 40 milhões de doses até agora, contra um plano que previa mais de 100 milhões até o final de março. Enquanto isso, apenas o mercado americano atingiu mais de 200 milhões de doses.

Atacado, o setor industrial acredita que haverá uma mudança nos próximos meses. Até abril, a indústria atingiu o marco de produção de 1 bilhão de vacinas. Mas a aposta é de que, com acordos de transferência e ampliação de capacidades, essa fabricação ganhará força nos próximos meses.

Citando o Banco Mundial, as farmacêuticas apontam que isso seria "suficiente para atingir a equidade global na distribuição de vacinas e atingir a imunidade mundial do rebanho até março de 2022".

"Esta previsão se baseia em mais de 275 acordos de fabricação que foram acordados até o momento. Desses acordos, 214 incluem várias formas de parceria ou colaboração que se baseiam na transferência de tecnologia", afirma a entidade que representa as maiores empresas do mundo.

"Há sinais iniciais de que o compartilhamento do know-how dos processos e das tecnologias usadas para fabricar as vacinas, bem como o treinamento de pessoal especializado para garantir padrões de qualidade durante todo o processo, estão agora começando a ter um impacto na produção projetada", disse.

Ameaça dos EUA

Apesar das projeções, o setor produtivo alerta que existe uma ameaça real por conta de barreiras comerciais e restrições à exportação que impedem o fornecimento global de componentes de vacinas.

A principal crítica se refere às leis americanas que estariam criando obstáculos para o abastecimento em fábricas pelo mundo.

"A demanda de matérias-primas, ingredientes e componentes de fabricação de vacinas precisará atender à demanda associada ao aumento da produção de vacinas", alerta o grupo.

"Isso é particularmente preocupante, pois atualmente há uma escassez global de alguns dos mais de 100 componentes e ingredientes necessários para a fabricação da vacina. Embora muito enfoque tenha sido colocado em garantir que haja frascos ou seringas suficientes, hoje estamos vendo escassez nos lipídios que são usados nas vacinas, bem como nos tubos e nos sacos plásticos que são usados no processo de produção de muitas vacinas", alertam.

Rajinder Suri, diretor-executivo da Rede de Fabricantes de Vacinas dos Países em Desenvolvimento, alertou que "um fluxo livre de componentes de produção de vacinas certamente ajudaria a atingir o objetivo desejado de acesso equitativo".

Thomas Cueni, diretor-geral da Federação Internacional de Fabricantes e Associações Farmacêuticas (IFPMA), também alerta que "as cadeias de fornecimento de vacinas são globais e os controles de exportação ameaçam essas cadeias de fornecimento". Segundo ele, uma simples quebra na cadeia de fornecimento de sacos plásticos poderia atrasar a produção em semanas ou mesmo meses.

O CEO da Moderna, Stephane Bancel, continua a apostar que o início de 2022 verá uma "produção suficiente de vacinas" e insiste que suspender patentes não seria o caminho. Segundo ele, sua empresa prevê 1 bilhão de doses em 2021 e outras 1,4 bilhão em 2022.