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Jamil Chade

Opinião: Seleção tem encontro marcado com a história

Seleção entra em campo para partida contra o Equador pelas eliminatórias em Porto Alegre - Buda Mendes/Getty Images)
Seleção entra em campo para partida contra o Equador pelas eliminatórias em Porto Alegre Imagem: Buda Mendes/Getty Images)
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

05/06/2021 05h24

Se os jogadores da seleção entrarem em campo vestindo o símbolo nacional e vencerem a Copa América, eles deixarão o torneio com mais uma medalha, um troféu para a sala de exposições da CBF e alguns milhões de dólares.

Mas se a opção for por não entrar em campo, entrarão para a história.

Nos últimos dias, já ouvi comentários de que, ao se recusarem eventualmente a disputar o torneio, os jogadores estarão politizando a seleção.

Quem diz isso parece desconhecer o fato de que é justamente entrando em campo e aceitando um evento extra, num país com quase 500 mil mortos por causa da covid-19, que esses atletas estarão ajudando a politizar a seleção.

Ao cantar o hino num estádio brasileiro, serão cúmplices aos olhos do mundo de um governo que abandonou sua função de proteger seus cidadãos. Vendedores de ilusão, charlatões e negacionistas torcem para um evento que possa desviar a atenção de um povo humilhado.

Sim, o torneio tem seu objetivo comercial e um cancelamento terá consequências para entidades privadas. Mas ele, inegavelmente, serve hoje a um objetivo político.

Quem insiste em defender que atleta não deva ter posição política ignora —ou opta por ignorar— que essa é a melhor receita para permitir que apenas aqueles que controlam a seleção possam utilizar o símbolo nacional com objetivos políticos.

Com anos de desconfianças e traições, não é de se surpreender que muitos de nós estejamos com um pé atrás diante da reação dos jogadores. Será apenas uma cortina de fumaça diante da crise interna na CBF? Será apenas uma manobra dos "europeus" para poupar seus jogadores?

Todas essas questões e dúvidas são legítimas. Ainda assim, um boicote terá um impacto importante. Futebol e política se misturam. Sempre.

Desde o ano 2000, percorri mais de 70 países, viajei com papas, chefes de Estado, secretários-gerais das Nações Unidas, visitei campos de refugiados, acompanhei resgates de vítimas de conflitos, apertei a mão de criminosos de guerra e de heróis.

Mas em praticamente todas essas ocasiões, nas diferentes culturas, religiões e línguas que conheci, sempre que eu me apresentava como brasileiro, meu interlocutor abria um sorriso e fazia um comentário sobre a camisa amarela mais conhecida do planeta.

Lembro-me de estar no interior da Tanzânia numa reportagem sobre o fato de que remédios essenciais não chegavam a uma população negligenciada de seus direitos. Mas, num bar miserável, um pôster na parede mostrava, com um orgulho surreal, a imagem de Cafu levantando a taça da Copa de 2002.

Como é que aquele pôster tinha ido parar ali, se nem mesmo existiam voos ou estradas asfaltadas até o local?

Em outra ocasião, fui até a fronteira entre a Jordânia e o Iraque, no Oriente Médio, em plena guerra pela derrubada de Saddam Hussein em 2003. Famílias inteiras haviam deixado o país por causa dos bombardeios e estavam presas numa terra de ninguém.

A areia deixava o ar, e tudo que se podia tocar, com uma aparência suja. Até que vi, entre uma tenda de refugiado e outra, um garoto de no máximo quatro anos vestido inteiramente com o uniforme da seleção brasileira. De onde havia surgido aquilo? O pai, ao saber que eu era brasileiro, veio me apresentar o menino. "Esse é meu filho Ahmadinho."

Fui enviado aos rincões mais pobres da Etiópia, para cobrir o problema da fome, e me deparei com um time inteiro de garotos que não tinha ônibus para ir aos locais das partidas que disputavam, não tinha treinador e apenas contava com uma bola. Mas todos usavam a mesma camisa: 10, de Ronaldinho. Parecia uma miragem.

Nesse périplo pelo mundo, um fato sempre me surpreendeu: como nós, brasileiros, somos identificados pela nossa Seleção.

Sim, trata-se de uma visão simplória, injusta, estereotipada. O Brasil é muito mais que isso. Mas essa realidade também revela que aquela camisa amarela faz parte de nossa identidade e vai muito além de representar um time de futebol. Faz parte de quem somos no mundo, gostemos ou não.

O problema é que esse bem cultural, essa Seleção que se diz "nacional", que usa nossas cores, canta o nosso hino e diz nos representar, foi apropriada por um grupo que enriqueceu e que acumula poder baseado em nossa emoção. Em nossa identidade.

Uma revolta de jogadores neste momento será aplaudida pelo mundo, que vê hoje o Brasil como uma ameaça sanitária internacional e lamenta o governo que temos. Será uma seleção que entrará para a história, ainda que sem um título.

Na pátria de chuteiras, a ameaça desses atletas não é um convite aos torcedores para que saiam às ruas para queimar a camisa amarela.

Muito pelo contrário. É apenas um chamado para que ela volte a ser usada com orgulho, símbolo de resistência e, talvez, até dos direitos humanos.

Não da morte.