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Jamil Chade

Padre Júlio rebate Janaina: corrupção, e não alimento, mantém a Cracolândia

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

08/08/2021 14h41

"Alimentar aquelas pessoas na Cracolândia é uma questão humanitária. Não seria matá-los de fome que resolveria o problema". Foi assim que o padre Júlio Lancellotti respondeu aos comentários da deputada Janaina Paschoal.

Em suas redes sociais, a parlamentar questionou a ação do religioso na distribuição de alimentos na Cracolândia. "As pessoas que moram e trabalham naquela região já não aguentam mais. O Padre os voluntários ajudariam se convencessem seus assistidos a se tratarem e irem para os abrigos" escreveu.

"A distribuição de alimentos na Cracolândia só ajuda o crime. O tema precisa ser debatido com honestidade", disse.

Depois de ser criticada pelos comentários, ela rebateu. "Se você tivesse um parente se matando com drogas na Cracolândia, o que preferiria, alguém que o alimentasse ali, possibilitando sua permanência no vício? Ou alguém que estimulasse a sair daquela situação?". Ela ainda destacou como marmitas são jogadas na rua e propõe uma "reflexão"

Em conversa neste domingo com a coluna, o padre explicou que, além de ser uma questão humanitária, a partilha de alimentos tem um outro objetivo: "estabelecer vínculos com os usuários". "O alimento não é o fim. É a forma de estar próximos e buscar saídas", explicou.

Ele destaca como as pessoas que fazem esse trabalho sentam à mesma mesa com os usuários para criar essa confiança. "É um processo longo e difícil. O nosso desafio não é transformar os irmãos. Mas amá-los", disse. "Eles não serão transformados pela força do fuzil e das carabinas. Serão transformados pela humanização da vida", defendeu.

O padre acredita que o que é falado sobre a Cracolândia se limita a um debate superficial. "Essa frase de que distribuir alimentos é favorecer o crime é um exemplo disso. Qual é o favorecimento? O favorecimento do crime é a corrupção. Não o alimento", insistiu.

Segundo ele, frases como essa ditas pela deputada mais servem para atender a um público que pensa que o trabalho é "dar alimento para vagabundo". "O fenômeno humano e a complexidade das pessoas ali é muito maior que se pode imaginar. Eu conheço essas pessoas sabemos dos dramas que essas pessoas têm. Não é a crueldade de negar o alimento que o transforma. Mas a capacidade de comer com ele e partilhar a vida", defendeu.

"Amar não é dizer para eles que estão certos. É caminhar com eles na busca da transformação", disse.

"As mais de 30 Cracolândias que existem por São Paulo apenas vão desaparecer quando a corrupção acabar e com essas pessoas tenham acesso a vários aspectos que lhes foram negados", disse.

"Não é o alimento que mantém a Cracolândia. Mas a corrupção"

Lancellotti diz que está de acordo com o comentário da deputada sobre a necessidade de uma reflexão. Mas alerta que o debate é outro. "Uma coisa que ela propõe, que é a boa, é a reflexão. E nós estamos abertos a isso, novamente. Nós já fizemos essa reflexão com inúmeros governos", disse.

O padre afirma estar disposto a acolher a deputada para que ela visite os locais e as igrejas que atuam na região. Ele também quer apresentar à parlamentar as pessoas que conseguiram sair da Cracolândia. "Há até mesmo um padre que era usuário da Cracolândia", disse. O religioso ainda lembra de casos de um médico italiano que passou a ser um morador da região, além de enfermeiras e outras profissões.

"São vários governos que já anunciaram o fim da Cracolândia. Há uma coleção. Todos já anunciaram o fim da Cracolândia e ela não deixou de existir. E nós fizemos com todos os governos reflexões sobre a questão", afirmou.

"O que favorece o crime ali não é a comida, que grupos religiosos ou não religiosos levam. O que apoia o crime ali é a corrupção e o crime organizado, aquele que tem a participação de agentes de estado", alertou.

O religioso relatou como manteve conversas com delegados. "Todos eles sabem disso", afirmou. "Há uma rede de crime organizado. Ela continua existindo não pela comida dada aos usuários. Mas ela continua existindo por ser uma fonte de lucro muito grande para o crime organizado. Há um crime organizado que já passou por várias administrações e várias ações repressivas e continua", indicou.

O padre explicou que o alimento que é partilhado entre aqueles irmãos é feito por diferentes igrejas e associações que já conseguiram retirar centenas de pessoas da Cracolândia. Algumas, segundo ele, já retiraram 2 mil pessoas.

"A questão não é tirar, mas quem coloca as pessoas la. É enxugar o chão com a torneira aberta", completou.

O religioso espera que a "reflexão" proposta pela deputada "ajude a cobrar do estado e das autoridades que se esclareça como é que o crime organizado funciona".