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Jamil Chade

Imprensa internacional critica desfile e cita "cenário a la Trump"

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/08/2021 13h42

Com ironia e comentários sobre o desespero do governo para se manter no poder, a imprensa internacional repercutiu nesta terça-feira o desfile militar organizado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O jornal britânico The Guardian citou como críticos qualificaram o ato de "desfile de República de Bananas", enquanto ironizou o fato de que imagens de desfiles na China foram usadas por aliados do presidente para marcar a data, adicionando um "sentido de absurdo" ao evento.

O jornal e outros pelo mundo destacaram como um ato durou "apenas dez minutos" e contou com tanques que soltavam fumaça. O Guardian também citou a baixa presença de apoiadores e indicou como críticos classificaram o evento de "fiasco".

Já o jornal francês Le Monde destacou que o desfile era "inédito" nos 30 anos da democracia brasileira e explicou como Bolsonaro vive uma queda de popularidade, diante da morte de 564 mil pessoas no Brasil pela pandemia da covid-19. "As pesquisas preveem uma grande derrota contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva", indicou o jornal, sobre um possível confronto em 2022.

O jornal de referência na França ainda cita como, no Brasil, há um temor de um "cenário a la Trump", numa situação de um presidente que se recusa a deixar o poder. "Bolsonaro, que sabe que as instituições de Brasília são mais frágeis que as de Washington, não faz nada para dar garantias: "Se não tivermos voto impresso em 2022, teremos um problema pior que nos EUA", disse, em janeiro.

Em Portugal, na Bélgica, no Canadá e nos EUA, a imprensa também fez uma relação entre o desfile e a situação pouco confortável de Bolsonaro nas eleições de 2022. Na Espanha, a agência pública EFE chamou o ato de "inusual".

Usando agências de notícia, o jornal argentino La Nación destacou como "partidários do governo se concentraram diante da presidência, alguns levando cartazes pedindo uma intervenção militar para salvar o Brasil". Já a Reuters apontou como "políticos de todo tipo qualificaram o desfile como um ato de 'intimidação'".

Entre os governos estrangeiros, a reação foi a de não menosprezar a importância do gesto do presidente. O temor de parte da comunidade internacional é que isso seja um símbolo do comportamento de Bolsonaro e de uma tensão que poderia levar a uma instabilidade política inédita.

Para diplomatas estrangeiros ouvidos pela coluna, o ato deixa o presidente —e de certa forma o Brasil— ainda mais isolado. "Hoje, sair em uma foto com Bolsonaro é comprometedor para muitos líderes pelo mundo", admitiu um negociador europeu.