PUBLICIDADE
Topo

Jamil Chade

Bolsonaro tenta reduzir pressão internacional com doação de vacinas

Bolsonaro na ONU - AFP
Bolsonaro na ONU Imagem: AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

21/09/2021 04h00

Num esforço para recuperar a credibilidade internacional, o presidente Jair Bolsonaro poderá usar seu discurso na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) nesta terça-feira para anunciar a doação de vacinas contra a covid-19. O principal destino deve ser a América Latina.

Acuado e fragilizado no palco mundial, Bolsonaro tenta refazer alianças e sinalizar que quer ser protagonista no controle da pandemia. As doses, portanto, seriam uma espécie de bilhete para reduzir a pressão internacional e tentar sentar à mesa dos governos que começam a desenhar o mundo pós-pandemia.

Mas, sem ter sido vacinado e representando o negacionismo, o presidente brasileiro sofre de profunda falta de credibilidade no exterior e é visto com desconfiança.

Nesta semana, em Nova York, Bolsonaro ainda participa da cúpula convocada pelo presidente americano Joe Biden para fechar um acordo na esperança de controlar a pandemia até meados de 2022. O objetivo é que, até setembro do próximo ano, cada país consiga vacinar 70% de sua respectiva população.

Para o final de setembro de 2021, a meta da OMS (Organização Mundial da Saúde) era de atingir 10% de cada país. Mas, diante da concentração de vacinas nas mãos de poucos governos, o objetivo não deve ser atingido.

Com as doações, o Brasil tenta seguir no mesmo caminho de China, Índia, França ou EUA, que usaram as vacinas para fazer diplomacia, ampliar sua influência regional e reforçar alianças.

Para a OMS, o Brasil é uma das grandes apostas na busca de uma maior distribuição de vacinas na América Latina. Quando Marcelo Queiroga assumiu a pasta da Saúde, ele ouviu de Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, um apelo para que o Brasil assumisse seu "papel histórico" de liderança na área de saúde.

A doação vem num momento de pressão inédita sobre o governo brasileiro. Na ONU, mais de 30 queixas foram apresentadas pelos relatores da instituição contra a gestão de Bolsonaro em temas como racismo, violência policial, saúde, ataques contra ativistas e o desmonte do sistema de direitos humanos.

Bolsonaro ainda é alvo de denúncias no Tribunal Penal Internacional por sua gestão na pandemia, enquanto relatores da ONU chegaram a propor oficialmente a criação de uma comissão internacional de inquérito contra o presidente.

Instrumentos possíveis

Entre as formas de fazer a doação, o governo estuda a possibilidade de abrir mão de parte dos imunizantes da Covax Facility, o mecanismo da OMS de distribuição de doses. Uma decisão final, porém, ainda não foi tomada.

A coluna apurou que, nas últimas semanas, membros do governo realizaram consultas com a Organização Panamericana de Saúde, indicando a disposição para doar doses para a América Latina. As reuniões tiveram como objetivo saber da situação regional e da distribuição de doses para cada um dos países do continente.

Internamente, uma das ideias sob consideração seria a de abrir mão de uma parcela das doses que o Brasil ainda aguarda para receber da Covax. O governo encomendou 43 milhões do mecanismo internacional. Mas recebeu apenas 14 milhões até agora. O restante poderia ser, em parte, alvo de um acordo.

O Brasil abre mão das doses que sequer ainda recebeu e, ao mesmo tempo, ganha um crédito na região por demonstrar generosidade.

O país já aplicou mais de 200 milhões de doses, sendo que a vacinação completa com duas doses é uma realidade para 37% da população. A consideração no governo, portanto, é de que os contratos hoje assinados e produção da Fiocruz e Instituto Butantan são sólidos. As quase 30 milhões de vacinas da Covax que ainda estão por chegar, portanto, poderiam ser negociadas.

Enquanto mais de 201 milhões de doses já foram aplicadas no Brasil, a Covax conseguiu apenas enviar 285 milhões de doses para 141 países do mundo, longe de sua meta de 2 bilhões de imunizantes até dezembro.

Um dos caminhos seria por meio da produção e distribuição de vacinas aos países vizinhos. Há um mês, de passagem por Genebra, o ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, revelou que acredita ainda que, até o final de 2022, o Brasil pode começar a exportar vacinas produzidas no país, principalmente para os países da América Latina. Segundo ele, 15 linhas de pesquisas foram lançadas e algumas delas começarão a entrar na fase de testes clínicos.