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Jamil Chade

Decisões politizadas mancham a credibilidade do Nobel

Prêmio Nobel - Divulgação/Nobel
Prêmio Nobel Imagem: Divulgação/Nobel
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

07/10/2021 04h00

"O Prêmio Nobel abriu uma porta no meu coração". Foi com essa frase que Aung San Suu Kyi explicou o que ocorreu depois que ela foi homenageada em Oslo por sua luta por liberdade em Mianmar em 1991. Anos depois, como chefe de governo, sua atuação diante de refugiados e sua decisão de fechar os olhos diante de um massacre por parte dos militares contra a população Rohingya deixaram o mundo escandalizado e geraram até pressões para que o Comitê do Nobel retirasse seu prêmio.

Aquela que era chamada de "Nelson Mandela de Mianmar" permaneceu em silêncio diante do êxodo de mais de 400 mil pessoas, enquanto o governo americano qualificou a crise de "genocídio".

Nesta sexta-feira, o prêmio Nobel da Paz de 2021 será anunciado, com apostas de homenagens para a liberdade de imprensa, Greta Thunberg, OMS ou mesmo indígenas. Mas, politizado, o Comitê do Nobel vive uma encruzilhada e a busca por restabelecer sua credibilidade.

O caso de Mianmar não foi um episódio isolado. Em 2009, o prêmio conferido a Barack Obama deixou até o próprio presidente dos EUA constrangido. Os organizadores insistiram que a meta da escolha era colocar pressão sobre o chefe da Casa Branca para que, depois de oito anos de guerras lideradas por George W. Bush, o governo americano optasse por outro caminho. Obama aumentou seus ataques com drones, atuou na Líbia e deportou milhares de imigrantes.

Em 2019, mais uma decisão mancha a imagem dos organizadores. A escolha foi por Abiy Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia. Sua transformação do país havia sido aplaudida pela comunidade internacional, assim como o acordo que tentou fechar com a Eritreia para colocar fim à guerra.

Mas, dois anos depois, ele conduz o país a um conflito sangrento que ameaça toda o Chifre da África. De herói à condição de pária, Ahmed contribuiu para elevar os questionamentos sobre o julgamento do Comitê do Nobel. Há apenas uma semana, ele ainda expulsou sete funcionários da ONU, acusando-os de envolvimento com assuntos internos do país

Alguns anos antes, foi a vez do então presidente da Colômbia, Juan Manoel Santos, receber o prêmio por fechar um acordo de paz com as Farc. Mas críticos alertaram que a decisão do Nobel de apenas conceder a homenagem para um dos lados do conflito era questionável, além da permanência dos paramilitares e do crime organizado dominando partes do país.

Repleto também de polêmicas, o Nobel ficou marcado por alguns de suas decisões ao longo de décadas. Uma das maiores foi a de 1973, quando o então secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, foi o agraciado por sua tentativa de colocar fim à Guerra do Vietnã. Mas os organizadores parecem ter optado por não considerar seu papel em golpes de estado na América Latina ou ataques ilegais no Camboja que deixaram entre 50 mil e 150 mil mortos.

Anos depois, em telegramas de seu gabinete que vazaram para a imprensa, Kissinger teria dito: "o ilegal fazemos imediatamente, já o inconstitucional leva um pouco mais tempo".

Para diplomatas, o prêmio é mais um reflexo dos membros do Comitê do Nobel que do vencedor. Não por acaso, em mais de cem anos, europeus e americanos dominaram os prêmios em suas várias categorias, com latino-americanos ficando com apenas 2% deles e 3% para a África.

Mas uma das grandes ausências do prêmio foi a de Mahatma Gandhi. Pelas regras do Comitê, a homenagem apenas pode ser dada em vida e, por anos, o indiano foi ignorado. Quando ele morreu em 1948, Oslo optou por não conceder o prêmio daquele ano.

Décadas depois, em 2006, o secretário do Comitê do Nobel, Geir Lundestad, declarou que não foi Gandhi quem ficou sem prêmio. Mas o Nobel que ficou sem Gandhi. "A grande omissão em nossa história é sem dúvida o fato de que Gandhi nunca ter recebido o prêmio. Ele poderia viver sem o prêmio Nobel. Mas se o Comitê pode viver sem Gandhi é que é a questão", completou.