PUBLICIDADE
Topo

Jamil Chade

Mundo terá vacinas para todos até fevereiro, mas desigualdade é ameaça

Enfermeira prepara vacina contra covid-19 - Luis Alvarez/Getty Images
Enfermeira prepara vacina contra covid-19 Imagem: Luis Alvarez/Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

11/10/2021 04h00Atualizada em 11/10/2021 19h06

Resumo da notícia

  • Indústria prevê fabricação de 16 bilhões de doses até fevereiro de 2022, suficiente para garantir proteção a todos no mundo
  • Mas concentração de imunizantes nas mãos de países ricos é maior obstáculo
  • Hoje, mais de 50 países ainda não conseguiram vacinas nem 10% de suas populações
  • 75% de todas as vacinas foram para apenas dez países

A previsão da indústria farmacêutica aponta que, menos de um ano e meio depois do início da vacinação contra a covid-19, o setor contará com uma produção em fevereiro de 2022 suficiente para abastecer com duas doses cada um dos habitantes do planeta. O aumento vertiginoso na produção, porém, não é garantia de que todos receberão doses, já que países ricos continuam numa acelerada campanha de compra de imunizante, desabastecendo dezenas de países mais pobres.

De acordo com dados da consultoria Airfinity, ligada ao setor industrial, a produção mundial chegou a 6,5 bilhões de doses até o início de outubro. Para o final do ano, serão 12 bilhões de doses fabricadas.

Segundo a previsão, o setor farmacêutico teria uma produção suficiente para garantir duas doses por cada uma das pessoas do mundo, com mais de 16 bilhões de fabricação, somando o acumulado de cada um dos meses desde dezembro de 2020. A capacidade de produção continuaria a se expandir, mas não há uma garantia de que ela seria plenamente usada, já que o mercado poderia começar a perder força.

De acordo com o setor privado, mesmo que as vacinas chinesas sejam retiradas da equação, a previsão é de que, entre maio e junho, haveria uma quantidade suficiente de doses no mundo para imunizar 70% de toda a população dos países em desenvolvimento e ainda assegurar uma terceira dose nos países ricos.

"De uma perspectiva de produção, vacinar o mundo passou a ser uma possibilidade em 2022", disse Rasmus Hansen, CEO da consultoria que trabalha em sintonia com as multinacionais do setor.

Segundo ele, a "grande surpresa" de fato da expansão de produção vem da China. Hoje, já são 3 bilhões de doses produzidas, praticamente metade de todos os imunizantes fabricados. A perspectiva aponta para uma expansão para um total de 6 bilhões de doses, o que significaria uma ampla capacidade de exportação.

Uma semana de produção vacinaria toda população vulnerável dos países mais pobres

Apesar da previsão otimista por parte da indústria, a grande preocupação na ONU, OMS e nos países em desenvolvimento é de que essa produção continue concentrada nas mãos de apenas um punhado de governos. Hoje, 75% de todas as doses administradas no mundo tiveram como destino apenas dez países.

De outro lado, começa a ser registrado um acúmulo de vacinas nos países ricos, já incapazes de escoar os produtos para sua própria população. Até final do ano, por exemplos, os estoques de Europa, Japão e EUA acumularão 1,2 bilhão de doses não usadas.

Enquanto isso, a África não consegue atingir a meta de 5% de sua população vacinada e mais de 52 países pelo mundo ainda estão com uma taxa de cobertura abaixo de 10%.

A desigualdade é de tal proporção que, segundo a OMS, todas as pessoas mais vulneráveis nos países mais pobres - idosos e profissionais de saúde - estariam vacinados hoje com o equivalente a apenas uma semana da produção atual de doses.

Diante da realidade de produção de doses, a meta da OMS é de que, até o final do ano, 40% da população de cada um dos países esteja vacinada. Isso, na prática, colocaria fim ao momento mais agudo da pandemia, pelo menos no que se refere à taxa de mortes.

Para isso, porém, a agência insiste que países ricos precisam começar a transferir de forma imediata doses que estão estocadas ou reservadas. Num segundo momento, a OMS espera que a marca de 70% de proteção em cada um dos países seja atingida em junho de 2022, permitindo que o mundo caminhe para o controle da pandemia.

Imoral e estúpido

Mas, para o secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, essa transferência de produtos precisa começar a ocorrer imediatamente. Para ele, não distribuir vacinas hoje "não apenas é imoral, mas é também estúpido".

Sua lógica é simples: enquanto o vírus puder circular, as chances de uma mutação são reais. Se elas ocorrerem, o risco é de que uma nova variante consiga driblar os efeitos da vacina. E, neste caso, todos voltarão a estar ameaçados.

Por enquanto, o mecanismo criado pela OMS para distribuir doses aos países mais pobres, conseguiu abastecer esses mercados com apenas 300 milhões de doses, longe da meta que havia sido criada de 2 bilhões de vacinas até dezembro de 2021.

De outro lado, a previsão é de 100 milhões de doses que estão em armazéns nos países ricos percam sua validade até o final do ano.