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Jamil Chade

ONU explica ao governo sua reação diante das manifestações de 7 de setembro

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

18/10/2021 10h04

Numa comunicação enviada ao Itamaraty, a ONU explicou seu comentário sobre as manifestações de 7 de setembro de 2021. A carta, direcionada para a missão do Brasil em Nova Iorque, esclareceu que os comentários da entidade publicados pelo UOL em 8 de setembro ocorreram ao ser questionada pela reportagem sobre a situação no país, e que não se tratou de uma declaração emitida de forma pró-ativa por parte do secretário-geral da entidade, Antonio Guterres.

A ONU, porém, em nenhum momento entrou em contato com a reportagem para tratar da matéria publicada ou após ser procurada pelo governo brasileiro.

No dia 7 de setembro, a reportagem do UOL usou um briefing oficial da ONU em Genebra para questionar se a entidade teria alguma reação diante dos acontecimentos planejados para ocorrer no Brasil.

No dia 8 de setembro, a diretora de comunicações da ONU em Genebra, Alessandra Vellucci, enviou um email oficial à reportagem, com uma resposta.

Eis a comunicação em sua forma completa e em sua versão original, fazendo referência direta ao "secretário-geral":

The Secretary-General is following closely the situation in Brazil and notes that social mobilizations held on Independence Day took place in a peaceful manner. He reiterates the importance of upholding the rule of law to address the current challenges facing the country and calls on all main political actors to resolve differences through dialogue.

Ou seja :

«O Secretário-Geral está acompanhando de perto a situação no Brasil e observa que as mobilizações sociais realizadas no Dia da Independência aconteceram de forma pacífica. Ele reitera a importância de defender o Estado de Direito para enfrentar os desafios atuais do país e apela a todos os principais atores políticos para que resolvam as diferenças através do diálogo ».

No dia 9 de setembro, um embaixador brasileiro entrou em contato com a reportagem para informar que não existiam tais comentários por parte do secretário-geral da ONU.

Ao ser confrontado com o email oficial da ONU com o conteúdo do comentário, o Itamaraty não voltou a falar com a reportagem sobre o assunto.

No dia 13 de setembro, o Itamaraty enviou um pedido oficial ao escritório de Guterres, solicitando uma cópia da declaração. A resposta viria no dia 28 de setembro, com o gabinete do português explicando que não se tratava de uma declaração, palavra usada na reportagem, mas de uma resposta diante do questionamento da imprensa. Na estrutura diplomática, uma declaração tem um perfil diferenciado em comparação a um comentário ou à resposta a uma pergunta.

"O Secretário-Geral não emitiu qualquer declaração a respeito da situação no Brasil", escreveu a ONU à missão do Itamaraty. "Quando indagada sobre as manifestações no Brasil no dia 7 de setembro de 2021, a porta-voz do Escritório das Nações Unidas em Genebra reafirmou a posição de princípio que as Nações Unidas exprimem em relação a manifestações populares em qualquer parte do mundo", completou.

No texto original de 8 de setembro, porém, pode-se ler :

"O Secretário-Geral está acompanhando de perto a situação no Brasil e observa que as mobilizações sociais realizadas no Dia da Independência aconteceram de forma pacífica. Ele reitera a importância de defender o Estado de Direito para enfrentar os desafios atuais do país e apela a todos os principais atores políticos para que resolvam as diferenças através do diálogo".

Quase um mês depois, no dia 15 de outubro, a Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) entrou em contato com a reportagem solicitando que a carta da ONU e uma nota do Palácio do Planalto fossem publicadas pela coluna, argumentando que, ao usar a palavra "declaração", a reportagem teria "induzido o leitor".

Apesar da solicitação por parte da Secom, em nenhum momento a ONU entrou em contato com a reportagem para solicitar a publicação da explicação nem qualquer tipo de correção, apesar dos contatos constantes e quase diários entre a direção de comunicação da entidade com sede em Genebra e a reportagem.


A nota da Secom diz:

"Com referência ao artigo "Secretário-geral da ONU pede defesa do estado de direito no Brasil", publicado no portal UOL em 08/09/2021, não existiu a suposta manifestação do senhor Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, a respeito das mobilizações sociais verificadas por ocasião do Sete de Setembro ou da conjuntura política brasileira.

Consultado, o gabinete do Secretário-Geral da ONU reiterou, em 28 de setembro de 2021, que "o Secretário-Geral não emitiu qualquer declaração a respeito da situação no Brasil", conforme pode ser verificado em documento anexo. Esclareceu ainda que "quando indagada sobre as manifestações no Brasil no dia 7 de setembro de 2021, a porta-voz do Escritório das Nações Unidas em Genebra reafirmou a posição de princípio que as Nações Unidas exprimem em relação a manifestações populares em qualquer parte do mundo".

O artigo atribui, portanto, ao Secretário-Geral da ONU comentários que não foram feitos por ele ou por seu porta-voz. Exprime percepções que desconsideram a solidez institucional brasileira, o perfil pacífico das manifestações sociais e a plena vigência do estado de direito no País.

O termo "declaração", na primeira frase do artigo, induz o leitor à equivocada compreensão de que se trataria de manifestação pública do secretário-geral das Nações Unidas sobre a situação no Brasil, e não de resposta provocada por veículo específico de imprensa. Atribui falsamente, ainda, ao contexto brasileiro uma simples formulação geral de princípios, motivada por pergunta do próprio jornalista.

O exercício da profissão jornalística pressupõe respeito a regras éticas. O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação. Não parece ter sido o caso na reportagem em questão."

Questionamentos

Desde o começo de 2019, relatores, altos funcionários da ONU, informes e cartas confidenciais questionaram o presidente Jair Bolsonaro, com acusações inéditas contra o chefe de estado no Brasil desde a redemocratização.

Um dos relatores, Baskut Tunkat, chegou a propor oficialmente a criação de uma comissão de inquérito internacional contra o Brasil pela gestão de Bolsonaro na pandemia. Tais comissões são criadas apenas para casos como Mianmar, Venezuela, Burundi, Coreia do Norte ou Síria.