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Jamil Chade

Candidato único, Tedros é nomeado para mais um mandato no comando da OMS

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), em coletiva de imprensa - Pavlo Gonchar/SOPA Images/LightRocket via Getty Images
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), em coletiva de imprensa Imagem: Pavlo Gonchar/SOPA Images/LightRocket via Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/01/2022 09h22

Nesta terça-feira, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus foi nomeado pelo Conselho Executivo da OMS para concorrer a mais um mandato a direção da agência mundial da saúde. Para que seu nome seja aprovado de forma definitiva, ele precisa ser chancelado agora pelos mais de 190 países na Assembleia Mundial da Saúde, em maio. Como candidato único, porém, a nomeação de hoje garante na prática ao etíope mais cinco anos no comando da OMS.

Duramente atacado pelo governo de Donald Trump e pelos aliados do presidente Jair Bolsonaro no Brasil por ter cedido às pressões da China no início da pandemia da covid-19, Tedros conseguiu sobreviver politicamente graças ao apoio que passou a receber dos europeus. Sua nomeação, de fato, foi uma iniciativa da França e Alemanha, que querem ocupar o vácuo em parte deixado pelos americanos na esfera internacional.

Ele também ganhou a simpatia de muitos países em desenvolvimento por colocar a questão do acesso às vacinas como um dos pontos centrais de seu discurso. Sua defensa da ciência e do multilateralismo no momento em que a pandemia ganhava proporções inéditas também resultou em uma certa estabilidade nos últimos meses.

Mas não faltaram acusações contra sua gestão, inclusive por parte de europeus, que querem que seu novo mandato tenha como epicentro uma reforma completa no sistema de controle de pandemias e nas operações da OMS.

Já em sua primeira eleição, em 2017, ele concorria contra o inglês David Nabarro e a paquistanesa Sania Nishtar. Mas estava sendo duramente criticado por ativistas de direitos humanos e ongs. Seu país é um dos regimes autoritários do continente africano e Tedros foi seu chanceler de 2012 a 2016. Antes, foi ministro da Saúde.

Mas, diante do conflito armado na Etiópia, Tedros tomou nos últimos meses uma postura crítica contra as autoridades do país. Segundo ele, a agência de Saúde da ONU sequer tem acesso às vítimas para a entrega de remédios.

Nesta semana, a diplomacia etíope tentou evitar que ele fosse considerado para mais um mandato no cargo, acusando Tedros de estar se aproveitando da cadeira de diretor para "obter ganhos pessoais". O discurso do embaixador da Etiópia que o acusava foi interrompido pelo Conselho Executivo da OMS, alegando que aquele não era o tema a ser debatido.

Na primeira eleição de Tedros, que contou com o voto brasileiro, pesou o fato de que, desde 1948, jamais um africano liderara a OMS. Ele ainda se apresentava como uma pessoa que transformou a saúde de seu país, enquanto foi ministro dessa pasta entre 2005 e 2012. Mas, segundo observadores, também foi fundamental o fato de ele ter, naquele momento, a chancela da China.

Assumindo uma entidade com sua credibilidade duramente afetada, o representante do continente africano passou a ser alvo de duros ataques. Entidade como a Human Rights Watch o recriminam por fazer parte do núcleo duro do regime autoritário do país, acusado de violações de direitos humanos e repressão pela própria ONU. Um grupo de 20 entidades escreveu para a OMS pedindo que seu nome não fosse considerado.

Sua campanha em 2017 ainda contou com acusações de que ele tentou abafar três epidemias de cólera, enquanto foi ministro da Saúde. Desta vez, porém, ele é o único candidato.