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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Nobel da Paz: Rússia vive "propaganda total" e não descarta arma nuclear

Dmitry Muratov mostra como ficou após ser atingido por tinta em foto no banheiro do trem - Reprodução - 7.abr.22
Dmitry Muratov mostra como ficou após ser atingido por tinta em foto no banheiro do trem Imagem: Reprodução - 7.abr.22
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

03/05/2022 11h51

"Vivemos a era da propaganda total e não descarto que armas nucleares sejam usadas." O alerta é do russo Dmitry Muratov, jornalista vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2021 por seu papel na defesa da liberdade de imprensa e seu trabalho de denúncia dos abusos de poder do governo de Vladimir Putin.

Diante da guerra na Ucrânia, o editor foi obrigado a fechar a operação de seu jornal e denunciou o êxodo de mais de 200 jornalistas e ativistas russos, desde o início dos conflitos armados.

Num encontro do qual o UOL participou com jornalistas em Genebra, nesta terça-feira, Muratov insistiu que o que ocorre em seu país é, acima de tudo, a vitória da propaganda imposta pelo Kremlin, o fim do jornalismo independente e sua substituição por versões da guerra que convêm ao presidente Vladimir Putin.

O problema, segundo ele, é que essa realidade criada pelo Kremlin hoje trabalha até mesmo para construir um argumento de que uma bomba nuclear poderia ser usada. "Não descarto que armas nucleares sejam usadas. Essa é uma possibilidade e o tema está sendo debatido na televisão na Rússia. Como se houvesse uma forma de usar essas armas. O que eu tenho dito é que, se elas forem usadas, não será o fim da guerra. Mas o fim da humanidade", alertou.

Muratov participou de encontros em Genebra para marcar o dia internacional da liberdade de imprensa. Sua preocupação, porém, é no impacto que a propaganda pode causar, justificando crimes.

"Como é que chegamos ao ponto que a humanidade inteira depende do dedo de um líder?", questionou, numa referência a Putin. "O mais dramático é que ninguém pode frear essa decisão, caso ela seja tomada. Nem o Parlamento, nem a população russa e nem Lenin", disse.

Para ele, esse "poder absoluto" foi construído ao longo dos anos e, em grande parte, silenciando a oposição e jornalistas.

"Era da Propaganda Total"

Muratov contou que ficou surpreso com a dimensão de influência da propaganda russa. "Não esperava que o povo tivesse absorvido tanta propaganda e que isso pudesse levar a população a apoiar a guerra, como está acontecendo", disse.

Mas, para se chegar a isso, ele aponta que o caminho foi preparado por anos pelo Kremlin. "Primeiro houve a repressão aos opositores. Depois veio a destruição da imprensa livre e sua substituição completa pela propaganda", contou.

"Hoje, a população está exposta à irradiação dessa propaganda", insistiu. "Os feriados nacionais foram militarizados e mesmo a Igreja entrou nesse esforço", explicou.

"Entramos na era da propaganda total e o que é mais incrível é que uma parte do governo passou a acreditar nas próprias propagandas que são difundidas. Vivemos num mundo onde os fatos não valem mais nada", constatou.

"Agora, vemos que existe uma parcela da população que acredita até mesmo que as armas nucleares não são tão ruins e que há formas de usá-las", lamentou.

Jornal fechado

O russo foi obrigado a encerrar as atividades de seu jornal, Novaya Gazeta. Segundo ele, assim que a guerra começou e as leis sobre como a imprensa deveria atuar foram anunciadas, ele decidiu perguntar aos leitores o que achavam que o jornal deveria fazer.

Naquele momento, o Kremlin impediu que a palavra "guerra" fosse utilizada. No seu lugar, os jornais deveriam apenas dizer que se tratava de uma "operação especial". "96% dos nossos leitores nos pediram para continuar a trabalhar, apesar da lei", contou.

Um primeiro alerta, porém, veio algumas semanas depois, quando o jornal publicou uma matéria de sua correspondente sobre "o que ela tinha visto na guerra". A rede de bancas de jornais alertou que não colocaria o jornal nas prateleiras.

Como resposta, os leitores do jornal foram até a redação e compraram centenas de cópias do jornal, para distribuir pela cidade.

"Sobrevivemos 34 dias", contou o editor. Segundo ele, um segundo alerta foi emitido pelo governo, ameaçando declarar o jornal como um "agente externo".

No mês passado, ele ainda foi atacado num metrô. Um homem o atacou com tinta. "Perdi minha visão na hora e até hoje tenho problemas, já que parte da retina foi queimada", explicou. Ele, porém, tentou seguir a pessoa que atacou. "Consegui entender que ele foi até um policial. Nossa investigação também mostrou que ele mudou três vezes de nome nos últimos anos. Na estação de trem, todas as câmeras puderam filmar seu rosto. E, mesmo assim, até hoje não existe um processo aberto contra ela", constatou.

Leiloar Medalha do Nobel

Muratov ainda revelou que decidiu que irá leiloar a medalha que ganhou do Prêmio Nobel, como forma de arrecadar dinheiro para os refugiados da guerra.

Ele elogiou a posta da Europa ao abrir suas fronteiras para os refugiados e diante do "êxodo de proporções bíblicas".

O editor ainda acusou a Europa de ter fechado, por anos, os olhos às ações de Putin. "Os líderes iam para a Rússia, se encontravam com os dissidentes políticos e ativistas de direitos humanos. Faziam fotos e depois iam assinar enormes acordos comerciais com Putin", criticou. "Todos estavam felizes. Hoje, uma parte desses acordos serve para bombardear ucranianos. O governo russo comprou líderes ocidentais", acusou.

Questionado sobre qual seria o futuro da Rússia, ele riu e pediu: "pergunte isso em outro momento".