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Jamil Chade

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Indignados, cadê vocês?

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/06/2022 05h45

Em Brasília, uma festa lotada com a elite da cidade celebrava a chegada do fim de semana, embalada ao som de bandas ao vivo. Nos bairros de classe média e alta de São Paulo, as janelas vazias indicavam que as panelas estavam em seus devidos lugares: na cozinha. Na avenida Paulista, o prédio da Fiesp mantinha sua cor, sem qualquer sinal de que seus ocupantes poderiam ousar usar o local como um outdoor gigante em prol do combate à corrupção.

Onde estão todos aqueles indignados que, com suas empregadas puxando os carrinhos das crianças, vestiram orgulhosamente a camisa da CBF e foram pedir um Brasil melhor e sem corrupção?

Os áudios do pastor Milton representam um sério abalo para a ideia de república num país que, de tanto sofrer golpes, já não sabe exatamente onde está o chão. Se seu conteúdo for confirmado, o mais assustador é que ele apenas prova que a OCDE tinha razão: a interferência de Jair Bolsonaro na Justiça.

Objetivo central da política externa brasileira, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) elaborou um documento ainda em 2020 em que tecia críticas à interferência do presidente Jair Bolsonaro sobre instituições que deveriam manter sua autonomia para lutar contra a corrupção.

Os comentários faziam parte de um documento classificado, naquele momento, de "confidencial".

Para a entidade, "aumentar a eficiência dos gastos públicos não será possível sem mais melhorias no combate à corrupção e aos crimes econômicos". "A aplicação de leis é um elemento necessário para evitar a impunidade e garantir a credibilidade e legitimidade das instituições. Os progressos na estrutura legal e institucional de aplicação da lei no Brasil têm sido fundamentais para o sucesso recente. Isso inclui leis e instrumentos-chave anticorrupção, tais como acordos de leniência, em combinação com o fortalecimento de órgãos de execução como a polícia federal, a unidade de inteligência financeira, o Ministério Público, o órgão fiscalizador da concorrência e as autoridades fiscais. Fortalecer a autonomia desses órgãos e isolá-los contra interferências políticas será fundamental para a construção de avanços no passado", defendeu.

Mas o alerta da OCDE era claro. "Recentemente, a autonomia de facto de todos esses órgãos tem sido questionada por interferências presidenciais incomuns no processo de seleção de postos-chave", indicou.

"Evitar interferências políticas no futuro através de processos seletivos baseados em regras e formalizar a autonomia operacional e orçamentária desses órgãos será crucial para evitar contratempos na luta contra a corrupção", sugeriu.

A suspeita, agora, é de que tal "interferência presidencial" possa ser uma realidade. Pena que isso caiu justamente em ano de Copa do Mundo. Não podemos culpar a ausência das camisas da CBF nas ruas. Afinal, estão guardadas para celebramos juntos que somos brasileiros "com muito orgulho, com muito amor", enquanto rezamos para que o menino milionário de 30 anos que veste o número 10 cumpra finalmente sua função de adulto.

A indignação seletiva seria a prova de que nunca foi a corrupção que de fato levou as pessoas às ruas naqueles anos de protestos? Ou o silêncio é apenas o estrondo de um país esgotado?

Seja qual for a explicação, os áudios não revelam quem é Bolsonaro. Eles escancaram quem nós somos hoje.