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Jeferson Tenório

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como negociar com um racista

F1: Após dez corridas sem vitórias, Hamilton iguala maior jejum da carreira - Divulgação
F1: Após dez corridas sem vitórias, Hamilton iguala maior jejum da carreira Imagem: Divulgação
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Jeferson Tenório

Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. Radicado em Porto Alegre, é doutorando em teoria literária pela PUCRS. Estreou na literatura com o romance O beijo na parede (2013), eleito o livro do ano pela Associação Gaúcha de Escritores. Teve textos adaptados para o teatro e contos traduzidos para o inglês e o espanhol. É autor também de Estela sem Deus (2018). O avesso da pele (2020) é seu romance mais recente, publicado pela editora Companhia das Letras.

Colunista do UOL

04/07/2022 04h00

Inspirado no livro da filósofa Márcia Tiburi "Como conversar com um fascista", dei título a esta coluna para pensar a naturalização de comportamentos racistas em dois episódios ocorridos na semana passada: um envolvendo o executivo negro da Proz Educação, Juliano Pereira dos Santos, ao ser chamado de "negão" em uma reunião de negócios por um executivo branco. E outro episódio envolvendo um dos maiores pilotos de Fórmula 1 de todos os tempos, Lewis Hamilton, ao ser chamado de "neguinho" pelo ex-piloto brasileiro Nelson Piquet.

Já de início devo dizer que o título desse artigo é uma grande ironia. Digo isso porque com racista não se negocia, nem se conversa. Com racista se combate, com denúncia e ações antirracistas. O título também tem a ver com a resposta de Juliano ao encerrar o negócio dizendo: "Não negocio com racista".

As mudanças de mentalidades também passam pela linguagem. No caso de Juliano, a fala racista no ambiente corporativo é mais comum do que se imagina. Ao ser chamado de "negão", sem ter tido qualquer tipo de licença ou proximidade com Juliano, o agressor só reproduz aquilo se circula nas rodinhas da branquitude: negros são negros e devem ser lembrados disso como modo de rebaixá-los. Porque não importa quem é a pessoa negra que está ali. Não importa se o que está em jogo é um negócio envolvendo 1 milhão de reais. O racismo passa por cima do capitalismo. O racismo foi a melhor tecnologia da violência inventada pela branquitude para manter privilégios e o poder da exploração.

No outro caso, a fala racista de Nelson Piquet, embora tenha se desculpado e tenha dito o que a maioria das pessoas dizem quando são pegas em ações racistas "Peço desculpas a quem se sentiu ofendido", temos um caso clássico de como o racismo recreativo opera. Aliás uma frase como essa coloca a ofensa racista no campo da interpretação, e é como se ele dissesse "olha, se você se ofendeu não é porque fui racista, mas é porque você que não me entendeu".

Se desculpar é importante e o mínimo que se espera, no entanto, o mais digno e humano é reconhecer a fala racista. Mais do que isso, como diria a escritora Cida Bento, pois pessoas brancas não se pensam enquanto pessoas brancas. Nelson Piquet certamente jamais se pensou dessa forma. Não se pensa porque pessoas brancas são colocadas como a norma. Como o padrão. Pessoas brancas são automaticamente reconhecidas como um exemplo de humanidade. Negros e indígenas, por exemplo, são sempre os outros. São os identitários. Os brancos não se pensam porque acham que o racismo não é um problema deles.

A associação da cor da pele negra para designar pessoas é um evento moderno. Pois nem sempre fomos negros, ou melhor, nem sempre fomos vistos como negros. Os primeiros registros do substantivo "negro" para designar pessoas de origem africana estão datados entre o século 16 e 17. No entanto, é a partir do século 18, no auge do iluminismo e do processo escravagista, que a palavra toma forma, não apenas para designar pessoas africanas, mas para transformar seres humanos em produtos. Essa reflexão pertence ao historiador camaronês Achille Mbembe, autor de Crítica da Razão Negra. Mbembe é um dos mais importantes pensadores da atualidade não só por tratar de questões raciais, mas também por oferecer um diagnóstico muito preciso sobre para onde a humanidade está caminhando.

Tanto a resposta de Juliano, quanto a de Hamilton me fez lembrar do documentário Eu não sou seu negro, dirigido pelo haitiano Raoul Peck. O roteiro foi construído a partir de um texto inédito do escritor estadunidense James Baldwin (1924 - 1987), intitulado de Remember This House (1979). Indicado ao Oscar em 2017, o filme reflete sobre a história racial conflituosa no EUA, após os assassinatos de três líderes negros na luta pelos direitos civis: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King.

James Baldwin, como se sabe, sempre foi um intelectual que procurou fugir de rótulos. Negro, militante, homossexual e escritor, Baldwin buscava o equilíbrio entre o ativismo e a construção ficcional para além da problemática do racismo e de sua sexualidade. A busca de Baldwin é, na verdade, a busca por um reconhecimento de humanidade. É a busca de todas as pessoas negras numa sociedade racista.

Ser chamado de "negão" ou de "neguinho" num contexto de racismo recreativo é sempre uma tentativa de desumanizar pessoas negras. Desse modo, podemos pensar que a frase: Eu não sou seu negro é também uma recusa à colonização do pensamento. Uma recusa a qualquer tentativa de redução da subjetividade à cor da pele. Eu não sou seu negro é uma recusa a uma pretensa tutela branca. É uma recusa a qualquer forma de cooptação. Eu não sou seu negro é também dizer que "Eu não sou seu neguinho" nem seu "negão". Eu não sou negro é dizer, em última instância, que a existência negra não precisa de sobrenome racista.

Pedir desculpas, reconhecer o racismo interno não tem efeito se não houver acompanhado de uma mudança de mentalidade individual e honesta. Entretanto, essa mudança só pode ser alcançada com um comprometimento ético e afetivo. Enquanto as pautas identitárias forem vistas apenas para pensar negros e indígenas, por exemplo, não avançaremos. Numa sociedade racista todos são afetados, brancos e negros. A diferença é que quem morre são sempre os negros.