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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

São Paulo sem utopia: cidade está presa em uma armadilha, a mesmice

Ricardo Nunes AMP - UOL
Ricardo Nunes AMP Imagem: UOL
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

26/09/2021 04h00

A cidade está com carência da fúria da Semana de 22, da modernidade de seu Quarto Centenário.

Insuficiência de forças como a Pauliceia Desvairada e a Modernidade dos meados do século 20, onde houve um surto de desenvolvimento e otimismo no Brasil. Em 1954, Florestan Fernandes disse: aqui tem gente que não pensa no passado, só no presente e principalmente no futuro.

Ao encontrar o prefeito Ricardo Nunes, percebe-se alguém que deseja cumprir o mandato completo de prefeito de São Paulo, comprometido com o esforço para governar bem a cidade. Levanta cedo, estuda problemas, anda de ônibus, tem os números na cabeça, mas está preso no alçapão da política velha.

Ele sofre de quatro problemas:

- Está enredado na armadilha da atividade, que é quando alguém fica tão envolvido com atividades diversas que perde a noção do porquê as está executando. Perde-se a visão da prioridade e do foco que deveria ser fundamental.

- É vítima do que entende como sucesso. Nunes destaca que um dos maiores ativos do governo é a força política que conseguiu amealhar no Legislativo e no mundo político. Exatamente aí está uma das amarras que prende seu desenvolvimento em busca de algo transformador. Isso é ilustrado pelo imenso poder de Milton Leite na Prefeitura. Que Ricardo Nunes procura não reconhecer.

- Está dedicado a problemas, que são dificuldades que se solucionam por intermédio de meios tradicionais. Falta escola, se constrói mais outra escola. É bom, mas não é ousado e avassalador.

Nunes deveria estar concentrado em dilemas, que é quando se têm dificuldades novas e cruciais, que demandam soluções criativas, transformadoras. Aquilo que é expresso na língua inglesa como "groundbreaking idea". Como a recuperação do tempo perdido pelos estudantes na pandemia. Crucial.

- Está refém do espólio de Bruno Covas. Depois do trágico e triste desfecho do prefeito eleito em 2020, ele está cometendo o engano de confundir respeito à memória de Covas e fidelidade aos princípios do antecessor com o direito, e dever, de avançar na linha do que pensa e imprimir uma marca pessoal à administração, de acordo com a cidade que deseja.

Nunes veio da periferia da cidade, se orgulha muito disso, tem uma visão de São Paulo forjada nos problemas de bairros pobres da zona sul de São Paulo, Bruno Covas vinha da classe média alta da cidade, com outras perspectivas.

Se Nunes se orgulha de ter um olhar diferente por ser alguém, um dos únicos prefeitos a nascerem na periferia, não pode ter um mesmo programa de metas de prefeitos que ele distingue como vindos de zonas ricas. Incoerência entre o discurso e a prática, não por hipocrisia, mas por estar atado à velha política.

Somos quase todos reféns de nossas crenças e desejos. Enxergamos o que queremos ver, e procuramos menoscabar o que nos contraria. Buscamos incessantemente um viés de confirmação para nossas crenças como explicou o ganhador do Nobel de Economia Daniel Kahneman, quando temos uma memória seletiva que guarda apenas aquilo que nos é favorável e refuta tudo o que nos contraria.

Nunes está engajado nesta arapuca. Ele vem da periferia, mas tem origem como vereador na mesma forma de Goulart e Caruso. Vir da periferia é positivo, mas não suficiente.

Nunes incorre em dois equívocos: esforço não é resultado, vontade não é ação. Está refém das ideias da turma que almeja conservar São Paulo na mesma coisa.

Quando diz que o projeto transformador que tem para São Paulo é o aumento da conectividade, através da eliminação das áreas de sombra da internet, explicita seus limites.

Óbvio que, quanto mais gente com internet disponível, melhor —sobretudo crianças que receberam tablets e não conseguem acessar. Todavia não muda a vida estrutural da cidade. Suplementa.

Projetos transformadores nascem de uma utopia, como houve na Semana de 22 e no "boom" de São Paulo nos anos 50s, emoldurado pela efeméride do Quarto Centenário, fermentam com a criação de um ambiente propulsor, se materializam com projetos ousados e que realmente mudam a estrutura de vida da cidade.

Como o Hidroanel Metropolitano que mudaria as estruturas ambiental, de transporte, tráfego de alimentos para periferia, de recuperação dos rios e ocupação para lazer e turismo de suas margens e a introdução do transporte aquaviário em torno de toda cidade, que é quase uma ilha, faltando cerca de 27 km para ser circundada. Uma nova cidade, sustentável, acolhedora, afável e civilizada.

Quando ele diz que se inspira na cidade de Lisboa para governar São Paulo, fixa os seus horizontes. Lisboa tem 545 mil habitantes, e a região metropolitana possui cerca de 2.900.000 pessoas. São Paulo tem 12,3 milhões, e a região metropolitana, cerca de 21,5 milhões —é outra coisa.

Lisboa é menor do que a subprefeitura da Capela do Socorro. Deveria se inspirar em outras metrópoles de dimensão semelhante a SP e criativas. Lisboa é acanhada e incomparável. A não ser na língua.

Enfim, embora alguém dedicado e sinceramente comprometido com o sucesso da cidade, Ricardo Nunes, gentil e afável, está ainda distante de uma utopia transformadora. Mas, pode chegar lá, se se libertar da velha política encarnada em Milton Leite e aliados.

Uma tarefa hercúlea. Na vida, sempre é possível se fazer algo grandioso quando se tem uma verdadeira utopia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL