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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Prefeitura Bilionária, Hora de Nunes Assumir

Prefeitura de São Paulo (SP) - Foto de divulgação: Guilherme Cunha / SMTUR
Prefeitura de São Paulo (SP) Imagem: Foto de divulgação: Guilherme Cunha / SMTUR
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

16/10/2021 17h24

A Prefeitura de SP vai ter 8 bilhões para investir. No mínimo. A felicidade pode chegar a muito mais, se o acordo sobre o Campo de Marte com a União transcorrer rapidamente, como esperam as partes.
Nem João Dória e Bruno Covas juntos tiveram tanto recurso para investir.
Isso é um desafio que pode virar uma armadilha. Depende do gestor. No caso, do Prefeito. A maior desculpa dos gestores é a falta de dinheiro, que na maioria das vezes escasseia, de fato.
Poucos sabem que a Prefeitura paulistana está tão bem fornida. Os vereadores sabem. O sucesso ou fracasso da gestão Ricardo Nunes está nas mãos dele, não lhe faltarão recursos, e, em parte, ele tem mérito nessa aquisição dessa realidade.
E o que é a realidade em si? "Vontade de potência e nada além disso" - afirma Nietzsche. "A realidade é exclusivamente um "mar de forças", complementa o filósofo.
Nunes tem um mar de forças à sua disposição.
HESITAÇÃO, O GRANDE ADVERSÁRIO
Ricardo Nunes enfrentará dois grandes monstros nesse mar de forças: primeiro, a hesitação, que parece ser uma característica sua, e que se transforma numa insegurança para tomar decisões, e o indeciso acaba levando a pecha de incapaz, porque na vacilação, o tempo passa e ele perde oportunidades.
Segundo, a veneração mal colocada a Bruno Covas. Respeitar e reconhecer o ex-prefeito, que teve um corolário trágico e imprevisto para a sua idade é justo, traz a marca da lealdade e da gratidão de Nunes a Bruno pela oportunidade ofertada. Foi Bruno Covas quem escolheu Ricardo Nunes como companheiro de chapa. O arranjo político foi dar a vice ao MDB, mas quem optou por Nunes foi Bruno. Nunes sabe disso e é perfeitamente agradecido.
Contudo, não formar a própria equipe de confiança, manter secretários apenas porque eram vinculados a Bruno Covas, ter receio de dispensar pessoas com medo de ser apontado como um companheiro desleal não faz sentido, é equívoco.
Qualquer político que ocupa um cargo no Executivo possui o direito inalienável de montar sua própria equipe, pois será ele a ser julgado pelo que vem adiante, pelo legado que deixar. Ninguém vai poupá-lo tendo 8 bilhões ou mais para investir, se não melhorar significativamente a vida em São Paulo, mitigando a culpa por ter poupado cargos de pessoas que eram da confiança de Bruno. Se são bons, devem continuar, se não são devem sair. E, de qualquer forma Ricardo Nunes só assumirá a Prefeitura de SP , de fato, quando indicar pessoas da sua confiança para: Secretaria de Governo, Casa Civil, e Chefia de Gabinete. Quem pode imaginar que esses cargos não sejam do livre provimento do Prefeito, entre pessoas de sua estrita confiança e alinhamento político pessoal?
Com a hesitação em formar a própria equipe e tomar certas decisões, somada aos fatos, da imensa influência de Milton Leite; Nunes vai cristalizando a impressão de que assumiu a Prefeitura de direito, não de fato.
De cem pessoas que responderam uma enquete sobre a Prefeitura, 52 perguntaram: "mais quem é o Prefeito?; 21 disseram " Ele não aparece"; 10 não sabiam o nome e nunca o tinham visto. Só 17 o conheciam, 8 de forma esmaecida e vaga, não emitiam opinião sobre sua gestão.
Ricardo Nunes foi eleito junto com Bruno Covas, teve a mesma votação. É estranho, mas é a norma vigor. O eleitor vota na chapa, e Nunes estava nela. Só que ele não realiza isso. Ele não assume conscientemente o papel que ganhou e tem.
A melhor forma de Nunes homenagear Bruno Covas é realizando uma ótima gestão. E, dinheiro não falta.

FAZER O QUÊ?
Esta é a questão que Nunes enfrentará. Onde colocar o dinheiro que terá?
Parte dele será assumida pela Câmara de SP, o que é natural do jogo democrático e da divisão de Poderes. É farisaico achar que os vereadores não devam participar do Orçamento, um moralismo aético, porque eles foram eleitos pela população. Também não faz sentido imaginar que eles devam açambarcar o Orçamento e conduzi-lo sendo o Prefeito um mero avalista decorativo.
Além, de formar a equipe Nunes precisará ter coragem de fixar pelo menos 5 metas transformadoras na Cidade e cobrar dos subordinados. Por isso, precisa ter o cerne do controle da prefeitura nas suas mãos, e não ceder o poder que assumiu legitimamente, em nome de equivocada homenagem. Homenagem correta é realizar o desejo de Bruno Covas quando eleito: governar bem.
Planejar é necessário, não suficiente. Implantar é o desafio, acompanhar, corrigir, entregar é o ciclo do gestor. E depois efetuar uma profunda e sincera medição dos impactos. Para aprimorar nos anos seguintes.
Ricardo Nunes precisa assumir a Prefeitura de São Paulo. Não adianta sentar na cadeira todo dia, dar algumas entrevistas, mexer com números; ele precisa se dar conta da realidade: um mar de forças. Ele não é vice. Por enquanto, a população paulistana está se dando conta que ele não se deu conta de ser o prefeito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL