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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Conversa Telefônica e a independência do Banco Central

Ligação, telefone, conversa, contato, comunicação - Getty Images/iStockphoto
Ligação, telefone, conversa, contato, comunicação Imagem: Getty Images/iStockphoto
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

27/10/2021 04h00

A gravação obtida pelo site 247 da conversa ( e que parece assumida por Roberto Campos), em que André Esteves diz ter sido consultado pelo presidente do Banco Central, é a imagem mais clara e insofismável da relação entre BC e parte do mercado financeiro. O mercado não é um ser só fumando charuto e com cartola, são vários agentes, bons e ruins, e a informação não é igual para todos. Não se pode generalizar. Conversar com alguns não é conversar com a maioria, muito menos com todos. A conversa, mesmo que seja legal, não é legal.

O presidente do BC não consegue falar com todos. E Esteves, se transformou num guru dos políticos que desejam ser acolhidos pelo mercado.
Roberto Campos Neto é uma pessoa honesta e bem intencionada. Porém, a conversa não foi feliz.

Ao pedir opinião sobre o "lower bound", o piso mínimo que os juros Selic poderiam chegar, ele, não conseguirá ter exatamente a mesma conversa com todos os agentes de mercado, logo...

De qualquer forma, não é o sentido da independência propalada em prosa e verso, antes da aprovação da lei.
Temos dois problemas graves aí. Primeiro, a falácia da independência do Banco Central. Como, se o BC estivesse livre da interferência política, ele poderia ditar os rumos do mandato que lhe cabe, com pureza, liberdade e perfeição técnica, que o BC não teria se fosse subordinado ao Poder Executivo, eleito pela população Uma conversa mole para boi dormir. A ideia aí é criminalizar a política e os políticos, se não houver políticos, os outros cidadãos são todos anjos, em laboriosa tarefa desinteressada e altruísta para o "bem do Brasil". Todos são pessoas honestas exploradas pelo Estado. Ninguém tem interesse?

Tem sim. Nós somos pobres, remediados, mas não somos bobos.

Isso vem na esteira de "neoliberais",, que estão vicejando em feiras livres atualmente, surgidos na onda sebastianista de Guedes e Bolsonaro. Os liberais de feira livre não se aprofundaram no liberalismo para saber das virtudes e vícios do sistema. Pobreza permite liberdade? Nenhum sistema é perfeito. Ter reserva com o liberalismo, não é ser socialista. É ponderação e experiência. Pouco Estado é bom para quem não precisa do Estado, Estado não é bom, quando em vez de estar a serviço da sociedade, serve com isenções e desonerações aos poucos privilegiados. Aí sim, é bom cortar. Dividendos isentos, juros subsidiados, Refis para não pagadores contumazes que os digam.
A ideia contida no liberalismo e na estorinha do Banco Central dito independente, é que se não houvesse Estado, ou se o Estado fosse desidratado até sobrar um mínimo, o problema do Brasil estaria resolvido. Ninguém na iniciativa privada é corrupto, ninguém faz concorrência desleal, ninguém busca "inside information", ninguém busca o monopólio, ninguém tem articulação com a imprensa e paga altos cachês por palestras enfadonhas, para obter informação privilegiada de jornalistas. O mercado é formado por varões de Plutarco, também, além da política.
O outro mal vem de políticos, que se entregam ao fetiche de se transformar em "bons companheiros" do mercado. Esteves não falou com o Senhor Presidente da Câmara, ele diz que "Arthur" ligou para ele, com uma intimidade sensacional, de quem é consultado por um amigo de "pelada", e churrasco de domingo, na laje, da Faria Lima.

A reverência submissa dos políticos, que julgam formidável vir a São Paulo e falar com "o mercado", é estarrecedora.
Os políticos de Brasília adoram vir sexta-feira para São Paulo, almoçar nos restaurantes da rua Amaury, e depois "falar com o mercado à tarde". Após o cafezinho crepuscular, sobra um tempinho para fazer shopping Iguatemi, para a patroa.
Esteves contou a conversa com Arhtur Lira, com desdém, "me atrasei porque precisei atender o Arthur", e com um tom de quem se gabaria de dizer em Washington, por exemplo;: "Falei com Joe".(Joe Biden). Um tanto pretensioso.
Os políticos da sexta-feira na Amaury e Faria Lima servem como fontes de decisões, que são antecipadas para o mercado, e se acham fabulosos por serem aceitos nas salas de vidro, e vão contar isso no Congresso e nas suas respectivas bases eleitorais.
É a captura do Estado pelo mercado. Do Estado que dizem que deve ser reduzido. Mas, gostam de oferecê-lo ao mercado, de bandeja. É o bandejão da Faria Lima.
Certos liberais do mercado não negam o Estado completamente, desde que ele esteja à disposição.
Quem nega o Estado são os políticos pacóvios, que prestam serviço ao mercado. Liberais nos comícios. Estatistas na hora das emendas. O mercado não é algo ruim, por princípio, mas não é um convento franciscano.
Na verdade, esse pessoal faz uma articulação Estado e mercado, mas não para benefício da sociedade, é uma articulação privada, a serviço de poucos.
A oposição diz que Banco Central independente é Banco Central dependente do mercado, não é assim tão amplo, o que é bom, é para poucos. É dependente de "alguns", mais iguais do que outros, e,que , por coincidência, acertam mais do que os outros nos juros, câmbio e outros preços, em que o governo tem papel fundamental.
O pior é que boa parte da imprensa comprou essas teses. De que o orçamento do Estado é igual a um orçamento doméstico (quem tem um Banco Central em casa?), de que um Banco Central sem a subordinação a um poder que foi eleito, é independente e não se liga a interesse privado nenhum.
Campos Neto certamente não teve essa conversa para ter vantagem própria, o que ele cometeu foi um equívoco induzido pelo vício de ser alguém de mercado, que viu essa banalidade da relação entre Estado e mercado ocorrer tantas vezes. O primeiro presidente de um BC independente, não poderia ter tido essa conversa. Logo depois, pode vir a porta giratória, por onde Mansueto Almeida entrou no BTG e Megale na XP.
A conversa iluminou a cara feia do mercado. Como Julio Iglesias, o mercado não poderia ter tirado a foto com este lado do rosto, que não é bonito. O clique pegou o mercado desprevenido.
Foi ruim, mas, esclarecedor.

São Mercado também cai em tentações. Peca.

Banco Central é independente de quem, cara-pálida?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL