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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Moro e Doria afunilam para terceira via

O governador João Doria entrega ao ex-ministro Sergio Moro a Ordem do Ipiranga, no Palácio dos Bandeirantes, em 2019 - Eduardo Knapp/Folhapress
O governador João Doria entrega ao ex-ministro Sergio Moro a Ordem do Ipiranga, no Palácio dos Bandeirantes, em 2019 Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

30/11/2021 13h42Atualizada em 30/11/2021 19h40

O busílis dessa eleição é se haverá ou não a terceira via. É o ponto crítico. Se não houver, Lula derrota Bolsonaro no segundo turno, em eleição que promete ter embates violentos e conflitos de rua.

Se uma terceira via se consolidar, a ponto de criar empuxo para ir ao segundo turno, terá a imensa possibilidade de derrotar Lula. Ou seja, ser ou não ser, se for, possui enorme possibilidade de se tornar o(a) próximo(a) presidente(a). Embora seja muito difícil que Simone Tebet consiga isso.

Por força do momento, dos fatos e das circunstâncias Sérgio Moro e João Doria aparecem como os candidatos mais viáveis à terceira via.

Simone Tebet é uma boa vice para qualquer candidato Nem-Nem,

Ciro vai perdendo tração de uma forma incrível: cometendo os mesmos erros. Ele é o caso que Einstein pontificou: insanidade é repetir o mesmo erro, achando que vai dar certo. Impressionante como o ego de Ciro o destrói sem que ele perceba.

Rodrigo Pacheco, pela viscosidade congressual embebida e pela amorfia na proposta, apesar de ter um partido grande, se candidata também a ser um bom vice, do tipo Marco Maciel, para quem precisa de votos em Minas Gerais e o tempo de TV do PSD. A dúvida é se a debilidade da candidatura vai levar Kassab a Lula ou à terceira via. Kassab sabe negociar. (Quem sabe, sabe, vota no Rodrigo, e vota no Kassab). Os outros estão fora do jogo para a presidência, podem ajudar em composições. O Novo apoiaria Moro?

Por que é importante acompanhar o movimento dos outros candidatos, embora eles não tenham chance de ganhar? Porque uma eleição deve ser acompanhada como Teoria dos Jogos, mutatis mutandis, quando dois ou mais concorrentes têm objetivos conflitantes. Trabalhada por John Von Neumann e John Nash Jr. .No caso, serão mais de dois no primeiro turno. Um jogo não pode ser ganho de forma unilateral, a ação de um candidato influencia o outro. O movimento de cada um, mesmo sem chances, gera respostas e ganhos e perdas para os outros. Se Moro virar vice de Doria? Se Tebet se tornar vice de Moro?

Então não é só olhar para os três principais, por ora.

Os aspectos que Moro e Doria terão que enfrentar, para que um se viabilize:

1- Moro precisa na chapa da companhia de alguém de centro, ele tira votos de Bolsonaro, os que se situam no círculo concêntrico mais distante, e votam em Bolsonaro, pois detestam Lula, e votam mesmo sabendo das falhas de Bolsonaro. O horror a Lula é maior. Esses podem migrar para Moro facilmente e seriam uns dois ou três pontos a princípio, que ajudam. Para avançar, precisa tirar votos de Ciro.

2- Doria não tira tantos votos de Bolsonaro, pelo histórico de embates, mas pode tirar votos de Lula, dos que votam nele porque detestam Bolsonaro, mas não amam Lula. Doria precisa buscar votos na centro-esquerda. Para chegar aos 2 dígitos.

3- Moro também. Moro terá mais dificuldade de buscar votos na esquerda, Doria, à direita. Votos complementares, além dos que ambos já têm. Doria sabe lidar mais com marketing e é mais combativo.

4- Ambos devem crescer dois ou três pontos até dezembro.

5- O ideal para galvanizar a terceira via é ter 15% até abril e 20% até julho. Esta é a corrida.

6- Ambos vão ter que enfrentar suas respectivas fragilidades. Pela pesquisa Atlas, a mais recente, Moro é visto positivamente por 30%, Doria por 20%, Moro é visto negativamente por 55%, Doria por 58%. Na partida, Moro leva vantagem, não muito grande, mas tem mais chance de captar votos em busca do patamar de 15%, que colocará qualquer candidato em posição de muita força.

Moro terá que lidar com as mensagens do Telegram, a liberação ilegal do áudio de Dilma Roussef e a liberação partidária da delação de Palocci. Doria tem mais dificuldade em agregar, precisa deixar de pregar só para convertidos e tratar de trazer pessoas que a princípio têm resistência a ele. Precisa ampliar. É um esforço novo, a que ele vai precisar se acostumar.

Ninguém chega à presidência, nas circunstâncias, se não ampliar suas habilidades. E isso parece fácil, mas não é. As coisas que mais nos trazem problemas não são aquelas que não sabemos, são as que pensamos que sabemos, e não é verdade (Mark Twain). Contrariar o estilo não é fácil.

7- Doria é mais comunicativo, Moro tem menos capacidade de falar om o público, porém parece mais humilde. E tudo isso repercute em um eleitorado não-politizado, no Brasil, cerca de 50%, 20% estão lutando contra a extrema pobreza, e 30% estão numa carência que os impede de formar juízos críticos aprofundados. Eles votam por percepção e instinto, o que, por vezes, se mostra acertado: a intuição é uma arma importante do eleitor. Na partida, Doria mexe melhor com isso, porém Moro vem evoluindo, colocando a cara e se mostrando mais valente do que foi quando deixou o governo e se recolheu.

8- Moro e Doria não têm base no Nordeste, liderado por Lula e seguido por Bolsonaro com a possibilidade do Auxílio Brasil eleitoreiro. Ambos não têm partido com penetração lá, nem capilaridade. Moro tem um tipo de comportamento mais propício para captar votos do Norte e Nordeste. Paulista possui mais resistência, e Doria personifica o paulista deste tipo, Moro parece mais um provinciano do Interior, matuto, menos rejeitado Brasil afora.

9- Os dois, ao fim e ao cabo, com vícios e virtudes, vão precisar apreender uma característica que hoje está totalmente em falta no país: ser estadista.

Suscitar na população, que está carente de esperança, o perfil e a palavra de alguém que pense mais na Nação do que na eleição, isso não é simples. Estamos em falta. Ter um discurso verdadeiro que convença que o país pode mudar. E para isso, terão que ter muita calma nessa hora, pois um virá de Henrique Meirelles, outro de Affonso Pastore, para a consecução do plano econômico e de desenvolvimento (que são diferentes), e traduzirão a mensagem do estadista.

Ambos, Meirelles e Pastore são liberais com visão social, liberais-sociais, Pastore com mais sensibilidade social do que Meirelles. Quem souber atacar mais a desigualdade vai se sobrepor. Meirelles corre o risco de ser mais técnico e insensível.

10- Sérgio Moro e João Doria são os que açambarcam, de longe, a maiores probabilidades de derrotar Lula e Bolsonaro. Um desejo, a princípio, de 40%, pelo menos, do eleitorado brasileiro.

Vão depender de entenderem o que precisam acrescer ao cardápio, que estão acostumados a servir, que por si só, é insuficiente.

Alea jacta est. Ambos já ultrapassaram o Rubicão. Agora é glória ou opróbrio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL