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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Moro e candidatos: muita vaidade, pouca empolgação

amor próprio - iStock
amor próprio Imagem: iStock
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

04/12/2021 17h07Atualizada em 06/12/2021 15h06

Thomas Hobbes, autor de Leviatã, chamou de vanglória a necessidade de admiração pública. Vanglória é a presunção exagerada, nos dicionários, simplificada.

Hannah Arendt escreve na Condição Humana, seu livro mais ousado; " ... a admiração pública é consumida pela vaidade, assim como o alimento é consumido pela fome.

Sergio Moro, o candidato que desponta para a terceira via, brindou seu público com um livro ególatra, onde se compara álacre a Elliot Ness,

Moro seria um Intocável do Brasil. Não só se absteve da coragem de tocar na forma incorreta e ilícita como se comportou como juiz, e ainda celebrou sua decisão de passar à vida pública, feita de forma bastante questionável, pela trajetória, como um sacrifício a favor do bem e da busca pelo fim da corrupção, que deve ser a terceira profissão mais antiga do mundo, Moro acha que vai nos livrar de uma chaga humana que tem a idade da descoberta da vida do homem na Terra. Mais do que pretensioso, mais do que um ato político, ele foi ridículo.

Moro até agora não trouxe nenhuma contribuição à esfera pública em outros setores como economia, educação, saúde e planejamento urbano.

No seu vazio de conteúdo, que surfa a onda do Nem-Nem suscitada por Bolsonaro e Lula com os respectivos erros e rejeições, Moro, que acordou do sono da omissão política, após deixar o ministério de forma inglória,e agora parece se mexer bem para crescer como terceira via, não cuidou de trazer qualquer utopia que nos anime, a não ser a vanglória da luta anticorrupção, onde deu tropeções legais. Largou no colo de Affonso Pastore, a tarefa de explicar alguma coisa, como quem se livra de uma responsabilidade e entrega a chave da consistência a um novo posto Ipiranga, mais abalizado do que o fake Chicago boy.

O pior e que a conduta de Moro é semelhante a todos os candidatos viáveis surgidos até agora.

Faltam empolgação, poesia e uma utopia real que possamos desfrutar.

O Brasil está faminto de esperança, assim como de comida. Não há um espírito de Juscelino Kubitschek à vista que possa ofertar um sonho de desenvolvimento. Não há estadistas. Só burocratas e espertos, que repetem sempre a mesma ladainha cantochão: precisamos de ajustar as contas com um olhar social, sem explicar bem como isso funciona. E o fazem de forma burocrática, como alguém que repete o número do RG e do CPF para ser cadastrado em alguma loja que vende a crédito.

Não há alma, entusiasmo. Reiteram valores simplórios, buscam a "união da Nação" e a vida sem brilho, porque não têm uma proposta inspiradora.

Incluindo Lula, que está só preocupado com sua vanglória e se vincula apenas aos sucessos de seu governo, que existiram, mas se desconecta de tudo o que fez ou deu errado, como se não fizesse parte do seu próprio governo, não fosse parte de si mesmo.

Ele lembra do dinheiro que dedicou ao Bolsa Família, iniciativa correta e elogiável, mas esquece do dinheiro que deu aos 0,5% mais ricos, através de estímulos, incentivos e desonerações e TJLP, em montante dez vezes maiores do que o Bolsa Família. Memória incrivelmente seletiva. Lula diminuiu a desigualdade renda no âmbito da classe B e C e efetuou a maior concentração nas mãos dos mais ricos, concomitantemente. Ele se lembra só da primeira.

De Bolsonaro não há o que falar, a não ser atitudes distópicas e se julgar o Elliot Ness contra o comunismo mundial, que não existe. Um anti-herói do espectro que rondou a Europa em 1848.

Nem Ciro traz uma proposta que entusiasme, porque apresenta boas ideias como se ele fosse o mago Merlin e tivesse uma varinha de condão, onde tirasse todas as maldades e colocasse todas as bondades num toque de mágica que nos é apresentada com vociferação e presunção, mais vanglória, do que oferta de um sonho.

No momento em que a sociedade brasileira mais precisa compartilhar uma utopia possível, se enxergar saindo do alçapão da pobreza e desigualdade, o que nos aparece é um grupo incapaz de nos fazer acreditar.

Enquanto precisamos da paixão de um Plano de Metas , recebemos o Eclesiastes : Vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho que faz debaixo do sol?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL