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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As mentiras contadas à imprensa mil vezes, que se tornam "verdades".

selo da mentira - Reprodução
selo da mentira Imagem: Reprodução
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

08/12/2021 18h34

O mercado financeiro é inteligente. E o mercado não é um só, não está personificado num magano de charuto na mão, cartola e fraque. São vários atores. Quando um preço está estável é porque metade aposta na alta, metade na baixa, modo de dizer.

Porém há mantras, entoados por uma maioria bem significativa, que sabe estar enunciando uma meia verdade, sem avisar o distinto público.

Boa parte da imprensa que cobre Economia, repete o mantra, sem se aprofundar na parte que é mentira. É enrolada.

A ver:

1- Que a economia de um país é como a da família. É falso. Uma família não pode emitir títulos para o mercado comprar, não pode criar moeda como o Banco Central pode, o credor de uma família não age como os credores do Tesouro, na dívida interna, que somos nós mesmos, que compramos títulos. Nós não executaremos o Brasil como nosso credor faria.

Esse raciocínio falso induz as pessoas a pensarem que o governo precisa atuar exatamente como elas ao tratar das respectivas dívidas privadas. Isso é uma desonestidade intelectual e uma vergonha, como diz Boris.

2- Se um cidadão poupar, não gastar toda sua renda, será bom para ele, ele vai poupar e isso permitirá que ele tenha segurança futura ou dinheiro para realizar sonhos. Se todo mundo fizer isso, é ruim para o país, a economia encolhe, a renda decresce. O aumento da riqueza se funda na dívida. O empreendedor o faz via dívida de empréstimo ou vendendo ações de sua empresa, que é uma forma de dívida futura a remunerar o comprador. Então, quando na recessão o governo não gasta, todos perdem renda, inclusive o governo que deixa de arrecadar impostos. É pior para todos.

3- Gastar não é sinônimo de gastar loucamente acima do limite, de modo que se torne a trajetória da dívida em vaticínio de não-pagamento, de desconfiança.

É possível deslocar gastos inapropriados, indevidos, é possível diminuir a renúncia fiscal feita para grupos privilegiados ou de cidadãos mais ricos, é possível se utilizar dinheiro que já está no orçamento e não foi gasto por incompetência, como os 15 bilhões que os prefeitos não realizaram na Educação (nesse caso só na Educação), sendo que 81% dos municípios não aplicaram os recursos mínimos. E a emenda do relator de 16 bilhões, Fundo Eleitoral, etc... Há dinheiro no escurinho do Orçamento.

4- Com o simplismo econômico, o mercado não conta que o Banco Central pode criar moeda, conforme Paul Volcker, ex-presidente do FED, destacou, embora a moeda nacional seja diferente, não é a moeda reserva como o dólar, o BC pode criar, guardadas as proporções. A imprensa não consegue conceber que o BC pode criar moeda, e tudo o que sai do famigerado Teto de Gastos, que virou fetiche e foi driblado pelo liberal Paulo Guedes, inúmeras vezes, fazendo todo mundo de pacóvio, é tido como desastre, o que não é verdade. . O mercado sabe disso, mas dissimula para não induzir gastos. Porém, não conta a história inteira.

5- Não conta, que é possível com um orçamento de capital, regular gastos de forma anticíclica, gerando investimentos em momentos de recessão, para a população mais pobre e de classe média não sofrerem, e economizar quando há um ciclo positivo como o boom das commodities no governo Lula.

Na verdade, se trata de uma defesa de interesse de classe, que é veiculada tantas vezes, e uma mentira contada mil vezes...

Parte da imprensa ainda não percebeu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL