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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Armadilha da desigualdade, cultura da desigualdade no Brasil

Família em situação de pobreza no Brasil;  - GETTY IMAGES
Família em situação de pobreza no Brasil; Imagem: GETTY IMAGES
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

19/01/2022 16h42

O Brasil começou em 1808. Com a chegada da família real e a abertura dos portos, dito para as Nações amigas, leia-se Inglaterra.

Trezentos anos antes houve algumas coisas boas, mas predominou a exploração predatória do país, e éramos considerados mazombos, um termo em língua africana, pejorativo, mutatis mutandis, semelhante ao "cholo", na América espanhola.

A chegada da Corte, se deu entre 1807 e 1821, contemplando, de pronto, a retirada das casas de brasileiros ou de portugueses que vieram para cá, para dar lugar aos cortesões portugueses. Privilégio, injustiça.

A primeira crise financeira foi em 1825, fruto do embarque no capitalismo da Revolução Industrial e na soberania monetária da Inglaterra.

Depois, necessitado de renda, o governo estabeleceu, segundo relatos de historiadores, a primeira taxa de agilização de documentos, que era um "por fora" para que se obtivesse papéis cartoriais oficiais mais rapidamente. Taxa de despachante, que alguns podiam pagar outros, não.

Nossa vida começou com desigualdade e ela entrou em nosso DNA. Infelizmente, para sempre, por ora. O grande mal é que criou uma cultura, que vai naturalizando e normalizando a desigualdade.

Hoje, apesar de imensa, mesmo as pessoas que a condenam, se conformam, docemente constrangidas, em parte, e assistem esse cortejo doloroso, em que milhões de pessoas se levantam de manhã sem saber se vão comer o suficiente durante o dia. Deveria gerar comoção pública. Não gera.

Desembargadores com salários de 35 mil reais, no teto, em função de penduricalhos e vendas de férias e licenças, aceitam receber até 400 mil por mês, num momento em que 90% da população estão tendo perda de receita. No Poder destinado a fazer Justiça. O que leva a ninguém do povo crer em Justiça. Ora, a lei.

Não são só os senhores desembargadores, as categorias mais bem remuneradas do serviço público querem aumento, estimuladas pela irresponsabilidade de um governo que deseja dar aumento a poucas categorias que ostentam um número maior de eleitores.

O Eclesiastes no Brasil se transformou de "Vaidade de vaidades, tudo é vaidade" em 'Desigualdade de desigualdades, tudo é desigualdade". Em resumo popular, todo mundo quer sua boquinha.

Isso é a cultura da desigualdade, que faz com que mesmo economistas sérios, escrevam artigos em favor da necessidade de ajuste fiscal, sem tocar uma palavra nas pessoas. Em gente que não come. Em gente que não mora, Em gente sofrendo.

Manejam nas respectivas digressões, econometria, equações obre dívida/PIB, sem que haja evidência qualquer de um número mágico para ela. E embarcam no conto de fadas da credibilidade internacional, baseada em lição de casa das contas públicas, para que estrangeiros invistam aqui.

Hoje, sem belos olhos segundo economistas como Salto, os gringos estão botando muito dinheiro na Bolsa. Por quê?

Porque ela está barata, e para quem ganha em dólares, mais ainda. Os gringos vêm para realizar arbitragem em juros e câmbio. Aproveitando a Bolsa, quando podem.

Não tem nada de credibilidade, não tem nada de amor, nem belos olhos. Vêm, quando ganham. Os capitais se movem em busca de acumular riqueza monetária.

O Brasil deveria estar cuidando de si, cuidando dos extremamente pobres, de ter uma Renda Nacional, de início focalizada na extrema pobreza, que já temos condições, e a seguir ampliando para as camadas inferiores em rendimentos da sociedade. Com um Orçamento Base Zero, extirpador de privilégios, de jabutis e interesses, que não servem aos mais pobres. Há muito.

O Brasil não tem dívida em moeda estrangeira, e a dívida interna está nas mãos de brasileiros, sobretudo o mercado financeiro que acumula os títulos da dívida pública.

A dívida do Brasil deve ser cuidada, mas não é o pavor que tentam nos vender, e não é "impagável", como analistas procuram nos convencer.

Além dos bancos, que podem criar moeda com o crédito, há o BC que também pode, se for o caso, sem ultrapassar o limite devido.

Vivemos mergulhados em meias-verdades, em mentiras inteiras, e inoculados dessa cultura, que alguns nem percebem, de desigualdade como algo natural. Que é o credo dos conservadores radicais. Assim como João Locke, pai do liberalismo, defensor da liberdade, defendia a naturalidade da escravidão.

O pai do liberalismo tinha uma companhia que traficava escravos e achava isso natural.

Antes que cometamos desatinos como este, é preciso de honestidade intelectual e de senso das proporções, para entendermos que o nosso maior problema a ser resolvido é a cultura da desigualdade.

Porque não adianta um programa ou projeto pontual, que reduza o problema em determinado momento, e a cultura da desigualdade continuar suas usina de pobreza.

Temos todas as condições para fazer.