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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Moro, Ciro e Doria. Há estoque de votos, não há fluxo

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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

21/01/2022 10h39

Haver terceira via é a grande questão para 2022. Em geral, utiliza-se uma simples subtração entre quem vota nos dois líderes das pesquisas e quem não vota, para indicar que há possibilidade de terceira via. Não funciona assim.

Em primeiro lugar é preciso descontar dos votos que não vão para Bolsonaro nem para Lula, os não-votos: bancos, nulos, abstenções. Que se concentram mais no eleitorado Nem-Nem, do que nos fanáticos de Bolsonaro e Lula. Ou seja, a perda de votos é maior, e sempre haverá 10 % de brancos, nulos e abstenções.

Porém, este não é o maior problema, mesmo assim haveria estoque de votos para uma terceira via superar Bolsonaro, contudo, os candidatos, pelos históricos e pelas atitudes não logram conquistá-los. Não colhem os frutos, não têm fluxo.

Moro, por suas atitudes anteriores como juiz, pela ação política que fez pró Bolsonaro na campanha e com a adesão ao governo como ministro, não consegue atrair votos dos Nem-Nem, que possuem visão de centro para centro-esquerda ideologicamente e de pessoas que o veem como extensão de Bolsonaro, um futuro bolsonarismo sem Bolsonaro, nos valores conservadores e liberais.

Ciro, pelo passado junto a Lula e por ter desejado seu apoio em 2018, quando todos os erros petistas já haviam sido cometidos, não oferece credibilidade para os eleitores do centro para centro-direita e não atrai eleitores que votam em Lula, também por ofendê-lo de forma chula diuturnamente, e só depois da rejeição. Ciro não seduz a direita, e não obtém votos de Lula. Tem um paredão de cada lado, e na quarta tentativa à presidência, conhecido politicamente e pelo seu temperamento, não será com João Santana, que irá mudar a percepção das pessoas. É uma tentativa inócua. De uma "marquetagem" já esgotada com Duda Mendonça .Uma Constituição e uma Bíblia nas mãos de Ciro, não lhe darão votos evangélicos.

Doria, pelo comportamento e pelas bandeiras liberais, não granjeia votos do centro para esquerda e na direita, tem Bolsonaro e Moro como adversários. Paredão à esquerda e à direita.

O que tem mais possibilidade é Moro, mesmo com os óbices que possui, contudo o que se vê é que o somatório que pode conquistar parece insuficiente para superar Bolsonaro. Precisaria se unir a Doria, para ter fluxo.

Este é o busílis.

Importante entender que esta é uma análise com base em constatações e movimentos dos candidatos sustentados pelas respectivas personalidades e culturas políticas. Não é um desejo.

Tem, gente que confunde análise com desejo, por conta dessa forma nova de comunicação via Twitter, Whatapp, Instagram, Tik-Tok, instantânea, curta, fugaz, sem profundidade.

Os usuários vão perdendo a capacidade de se concentrar e ler textos mais longos. É a indústria da "descomunicação", à serviço da radicalização e exterminando com a ponderação.

A terceira via tem potencial, em termos absolutos, em um agregado amplo, todavia, quando rumamos para a personificação, para a navegação rumo a um nome individual que a represente, este tem falta de fluxo de votos, carência de captação de fontes. Pelo menos, por ora.

Não falta estoque de votos para uma terceira via. Falta capacidade para atraí-los em quantidade suficiente.

Tebet seria um bom nome para suplantar essas barreiras, porém sofre o ônus do noviciado, não ser conhecida amplamente no Brasil. Só um programa de governo impactante, talvez resolvesse isso.

Para mudar o fluxo que não flui, só se os candidatos mudassem sinceramente de atitude. E, enfrentassem seus óbices.

Está difícil. Os egos vencem o bom senso.

A torcida organizada, em volta de cada um deles, não os corrigem, os pervertem, como diria Santo Agostinho.

Os candidatos não estão percebendo.