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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que Lula está na frente com tanta diferença?

19 dez. 2021 - Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva  - Marlene Bergamo/Folhapress
19 dez. 2021 - Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva Imagem: Marlene Bergamo/Folhapress
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

28/01/2022 17h54

Por que Lula está na frente com tanta diferença?

São vários motivos, porém um, se sobrepõe, Lula tem uma ligação direta com o povo, que os outros não conseguem lograr. Alguns, nem tentam, nem entendem o que é isso.

Não apoio Lula, para ficar claro, para os fanáticos de plantão, reconheço o que me parece realidade. Hoje em dia, qualquer consideração é interpretada conforme a torcida do leitor.

A ponderação é a maior ausente das redes sociais, como disse Roque Citadini. Moderação é algo que não encontra lugar. Análise é ver os vícios e virtudes. O trade-off, nada é 100%.

O grande mal dos candidatos é não perguntarem para eles mesmos ou encomendarem uma pesquisa particular, para saber o motivo de estarem onde estão.

Ciro apareceu na CNN, do mesmo jeito que em outras entrevistas.

Fica-se com a sensação de precisarmos agradecer a ele por sair do Olimpo, deixar Zeus assumir como adjunto de plantão, enquanto ele escolheu ser nosso contemporâneo.

É muita soberba junta. Nunca deu certo, Ciro teima em fazer a mesma coisa e achar que agora vai dar certo. Não leu comentários de Einstein.

Além da soberba, Ciro comete uma série de atropelos e enrolações: disse que era o único que governou com todo dia sem déficit, coisa que ele não tem elementos para apurar dos outros. Ele não se contenta em parecer bom, ele tem que ser o melhor de todos. Para ele São Paulo está quebrado, o que não é real, e só o Ceará é campeão em tudo, e o centro do Universo se localiza em Sobral.

Em vez de conseguir identificação com o eleitor, ele suscita distância, desconfiança, por crer que é "o bom", e fará tudo facilmente. É um "fenômeno".

Devemos crer nele, porque ele é o Ciro. Provoca anticorpos, ainda não percebeu.

Moro exibe um ar fátuo, que não tem vínculo algum com a população, exibe um despreparo intelectual sobre a vida do povo e tem como signo a superioridade de boa parte dos magistrados.

João Doria é o menos popular de todos, e tem uma imagem autocrática, que parece cultivar com gosto. Com tudo que fez, não seduz.

A pergunta mais popular direta ao ponto é: desconsiderando paixões, imaginando que cada um deles é um cidadão comum, que trabalha com você:

Com quem você iria tomar uma cerveja e jogar truco?

Numa pesquisa qualitativa alguém disse: "Lula tem "ziriguidum". Leia-se enlace com o gingado do povo.

Isso não fácil cultivar, nem é algo que marqueteiro possa introjetar na alma das pessoas.

Aliado a este vínculo, que as pessoas sentem, sem que se precise explicar, Lula, queiram ou não, conseguiu criar imagem de alguém que tem preocupação com o pobre. Que o entende.

No adversário, é preciso reconhecer as virtudes, não adianta tapar sol com a peneira, pois as pessoas percebem, ninguém é bobo.

Ciro é professoral, e parece que vai bater com a palmatória nos alunos que não estudaram em Sobral.

Moro nunca lidou com povo. Doria tem algo que o afasta de receber um sentimento de afeto. Ele tem dificuldade com a empatia.

As pessoas captam tudo isso, e eles não avançam, apesar dos deslizes de Lula.

Parte da decisão do voto não é racional, tem emoção e entranhas.

Nada mais ignorante do que achar, que o cidadão, por não ter curso superior ou pós-graduação, não intui as coisas, não distingue os personagens. O povo não é bobo.

Lula cometeu muitos erros, e é uma personalidade "macunaímica". Tem muito a explicar e milita num pragmatismo astuto, onde reconhece só o que vai lhe enaltecer. O resto, ele esquece ou não sabia.

Aprendeu a se virar vivendo na insegurança alimentar, que os outros não tiveram.

Quando fala "vou colocar o pobre no orçamento e o rico no IR", não está dizendo nada de concreto, nem explicita o conteúdo, mas consegue se comunicar. Ao lado de alguém rude, sem empatia e frívolo como Bolsonaro, que busca luzes no "Farol Olavo de Carvalho". Quem leva vantagem?

Nenhum dos candidatos é perfeito, ninguém é.

Contudo Lula sabe explorar esse elo anímico com o povo, sobretudo o mais pobre.

Reconhecer não é apoiar. É criticar.

Lula está na frente por conta de Bolsonaro e do bolsonarismo, pela imagem consolidada não só pelo Bolsa Família, que os tucanos deixaram escorregar, sobretudo pela valorização do salário mínimo. As pessoas na luta pela sobrevivência, não vão fazer uma "análise estocástica" do "boom" das commodities.

Mas, o principal motivo é a ligação com os cidadãos.

Enquanto os candidatos não descortinarem tal ponto, e agirem verdadeiramente, Lula vai seguir liderando.

Ele não será nem o Lula do Palocci, nem será o demônio que parte do mercado quer ver. Vai compor, como sempre.

Vai assustar antes, e compor depois.

É Lula.