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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não haverá golpe na eleição, o problema é a diplomação

18.dez.2018 - Confusão durante a cerimônia de diplomação de políticos eleitos em São Paulo - Luiz Cláudio/Estadão Conteúdo
18.dez.2018 - Confusão durante a cerimônia de diplomação de políticos eleitos em São Paulo Imagem: Luiz Cláudio/Estadão Conteúdo
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

08/05/2022 09h31

A pergunta de "um milhão de dólares", evocada atualmente é: vai ter golpe?

Em tempos passados, após a retomada democrática em 1985, isso era matéria para brincadeira. Ninguém sequer supunha a possibilidade.

Hoje, apesar distante, é uma eventualidade, a se considerar. Triste!

É o legado maior do governo Bolsonaro: ter criado a ameaça concreta de um golpe militar no Brasil.

Todavia, um golpe não se dá sem a anuência de parcela significativa da sociedade, a participar ativamente da conspiração, e a anuência de maioria considerável das Forças Armadas.

Hoje isso não acontece.

Embora, sabermos que cerca de 20% dos brasileiros comemorariam um regime autocrático de direita, a maioria o repele, e os 20% podem até enviar estímulos pelas redes sociais, mas não conseguem se impregnar no resto da sociedade, como ocorreu em 1964, com amplo apoio da classe média. Graças a Deus, e a nós, que somos democratas.

Outra coisa, na América do Sul, não há golpe da Direita, sem participação ativa dos EUA. Hoje os americanos não estão alinhados com Bolsonaro, e o fantasma do comunismo, que não existe no Brasil, não os assombra. Tio Sam está fora. embora Bolsonaro, aliado de Putin, esteja desesperadamente procurando Joe Biden, a quem negou cumprimento imediato, depois de ter levado um cartão amarelo. Tio Sam não quer aventuras contestatórias.

Não haverá golpe com relação às eleições. Dia 2 de outubro, elas se sucederão.

O problema virá depois, como as consequências de Marco Maciel.

Se Lula ganhar no primeiro turno, será por margem exígua, e o caso será pior.

A contestação armada por Bolsonaro há anos com urdidura cuidadosa, emergirá na noite mesmo da apuração. O clima esquenta logo, e tende a tomar a forma dessas manifestações violentas de rua.

Os "riots" americanos.

Se Lula vencer no segundo turno, o que se dará por margem maior, as manifestações de contestação brotarão gradualmente, mas de forma ascendente. Para impedir a diplomação.

Como estamos num país, miseravelmente dividido, os partidários de Lula vão reagir, e o resultado é incerto, contudo, de qualquer forma indigesto.

No final desse drama, que arrisca a virar tragédia, penso de forma otimista, que não acontecerá nenhuma disruptura institucional.

Mas, amargaremos um "climão" péssimo, que se estenderá para o ano de 2023, e junto com o Orçamento destroçado da União, e os outros componentes da economia, nos brindarão com ano muito difícil, impeditivo de realizarmos as reformas que precisamos. E, que seria lícito esperar após as eleições.

O mercado financeiro vai tremer.

No mínimo teríamos mais frustração e distopia. No máximo, melhor não cogitar.

Estamos em uma bifurcação terrível.

Um dos caminhos é a barbárie completa, onde sabemos que não iremos nos salvar.

Caso Bolsonaro vença, com tudo o que fez, se sentirá avalizado pelo povo. Da primeira vez, a maioria não sabia em quem estava votando. Votava contra o PT. Agora, não.

Vamos de Viktor Orbán para pior.

O outro, embora democrático e com visão social, apesar de respeitar as normas civilizatórias, traz consigo o fel da alta probabilidade de recidivas comportamentais inquietantes e até assustadoras, ornadas pela coroa de louros da vitória nas urnas.

Lula e o PT, narcisistas egocêntricos, não vão entender que ganharam pela rejeição à Bolsonaro, mas, que triunfaram pelos seus supostos méritos autoatribuídos. Será o reino de insolência e da prepotência.

Os "salvadores da Pátria" vestirão um manto de Sebastião I, em Alcácer-Quibir e tentarão se arraigar no Brasil, como a crença que se espalhou no Nordeste brasileiro.

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

O Brasil tem 99% de probabilidades de ser envolvido por hegemonização. Ambas autocráticas, uma, bem pior do que a outra. Mas, também insalubre.

Viver, vai se tornar mais perigoso do que Guimarães Rosa alertou.

O que fazer? , eis a questão.

Sem sorte não se come nem um Chicabom, você pode engasgar-se com o palito ou ser atropelado pela carrocinha, avisou Nelson Rodrigues.

Primeiro precisamos de sorte.

Mas importante saber que isso não ocorreu por acaso, e que estamos pagando por nossos pecados. Aceitar a desigualdade indecente que nos envolve, aceitar o manicômio partidário, que permite eleger representantes que não representam, ter uma elite egoísta e que soma a exiguidade intelectual ao afinco por privilégios.

Na verdade, nossas instituições existem mas não estão funcionando a contento. Funcionam "mais ou menos" como quase tudo no País do Futuro.

Resultado: Lulismo e Bolsonarismo se apoderaram do Brasil.

No momento, como se viu no lançamento da chapa Lula/Alckmin, nem a "esperança" dá uma esperança, e começa a perder para o medo. O presente de Janja para o noivo soou provecto, como um casaco mofado retirado do guarda-roupa depois de anos. A história se repetindo como farsa. Apesar do entusiasmo da noiva. Uma ode surrada a um "heroi" surrado.

Bolsonaro é o Apocalispe Now acima de tudo.

Ciro, o terceiro (na pesquisa), é a arrogância em forma de briga entre torcidas organizadas. Moro, um trapalhão, Doria, a rejeição, que colheu o que plantou, Simone Tebet, tem mais imposições do que votos.

Só resta iniciar uma luta muito organizada para extinguir a extrema pobreza e arrefecer veementemente a desigualdade no Brasil. E, rezar.

Estamos em penitência pelo mal que fizemos.

Mas, o Brasil é grande e pode sobreviver, porque não há mal que sempre dure.