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José Luiz Portella

REPORTAGEM

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'Lularcia', a novidade eleitoral que está surgindo

Rodrigo Garcia - Charles Sholl/Brazil Photo Press/Folhapress
Rodrigo Garcia Imagem: Charles Sholl/Brazil Photo Press/Folhapress
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

17/05/2022 08h33Atualizada em 17/05/2022 21h38

Solidariedade sai na frente com a bandeira criativa: "Lularcia". Mas ouvi também vários outros partidos.

O Brasil é sempre surpreendente, e traz consigo contradições e oximoros constantes.

Em 2018, João Doria (PSDB) só venceu Márcio França (PSB) por conta do BolsoDoria, ao qual se agarrou desesperadamente.

Pois a vida castiga, diriam alguns, ou o futuro a Deus pertence, diriam outros.

Doria pagará pelos seus pecados, com o surgimento de uma chapa, que vai se impondo devagar e sempre, e agora recebe a benção do Solidariedade, o partido de resultados: Lularcia. Votar em Lula (PT), lá, e Rodrigo Garcia (PSDB), aqui. Estar no poder em todos os lugares.

Aos poucos, as correntes vão se conformando à realidade, e diante da hecatombe bolsonarista, descobrem que na vida só resta seguir ('Só você', dos Tribalistas), e mesmo conhecendo as tartufices lulopetistas, apertam Lula, na urna eletrônica.

Depois dos 33% que o fazem por crença fundamentalista, o resto, que eleva Lula aos 43%, 44%, o faz por absoluta falta de opção. Mas alguém tem que governar o Brasil. Então, fecha os olhos e pula.

Porém, essa mesma corrente, somada aos antibolsonaristas convictos, percebe que entregar São Paulo ao forasteiro Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) é compensação indigesta e resvala, devagar, para Rodrigo Garcia.

Está formada a chapa Lularcia. Que acaba por fulminar Doria, já bem esquálido no estado, com 4% de intenções de votos para presidente, depois de três anos e três meses como governador.

Cada um colhe o que semeou.

Contudo, há outro "feitiço contra o feiticeiro", além da ironia que alcança Doria, ex-bolsonarista. Fernando Haddad urdiu com excelência, para ele, a invenção de Alckmin como vice, supostamente para inserir Lula no centro e nos eleitores frustrados "peessedebistas". Na prática, para tirar Alckmin da frente, o popular "fazer cair para cima".

Alckmin ganharia a eleição em SP, mas como alimentava sonhos brasilienses, magoado com a votação que recebeu em 2018, Haddad vendeu Alckmin para Lula. Toda amizade é um risco na política.

Ou por traição, ou por convicção exagerada. Lula ama Haddad. Então, acreditou na "cantada" de Haddad (bonita camisa, Fernandinho; para quem lembra da propaganda), e.Fernandinho lhe concebeu Alckmin, novo integrante da Internacional Socialistas nativa.

Pois bem, aqui se faz, aqui se paga, diz o ditado com sabor confessional. Haddad, como Doria, vai amargar o Lularcia. Lula, lá. Garcia, cá.

Não é só o Solidariedade que está nessa linha, há vários partidos na ampla aliança de Rodrigo Garcia, apoiando a Garcia e apoiando Lula.

Há também, para completar a desgraça de Haddad e Doria, o Bolsodrigo, partidos votando em Bolsonaro, lá, Garcia, aqui.

Tudo isso é consequência, também, da decisão muito infeliz do STF de 2006, nas asas da prepotência de Marco Aurélio Mello, o "descobridor da liberdade de opinião dos partidos", que levou o Brasil ao caos do manicômio partidário. Hoje existe todo tipo de aliança. Arranjo matemático.

Todavia, a chapa "Lularcia" está crescendo, porque a lógica que prevalece é da prioridade presidencial. Como vai restando a alternativa "votar em Lula" contra o mal maior, a compensação é não ofertar São Paulo nem ao bolsonarismo forasteiro, nem ao petismo de resultados.

Há uma convicção, que reparei ouvindo todos os partidos relevantes, por intermédio de algum líder qualificado: PT no Brasil, em São Paulo, não. É demais."Enough is enough".

São Paulo, com a "última aldeia gaulesa (Asterix) antipetista, consagrou o PSDB por anos, não só por méritos, mas por alternativa ao petismo.

Alckmin não entendeu. Nem Haddad e Lula, que entraram no conto do vigário, que Alckmin venceu várias eleições por ser o antiPT de plantão.

Não por liderança pessoal. Alckmin tinha bases no interior, sim, menos do que se falava, e mais por representar um antipetismo moderado.

Rodrigo Garcia, hoje, é a maior esperança do PSDB de não se extinguir totalmente.

A chapa Lularcia está posta.

Ouvi muita gente não digo entusiasmada, mas conformada com esse destino.

Cabe a Garcia e Lula gerarem entusiasmo à escolha feita pela conveniência de evitar Bolsonaro lá, e o PT (Haddad) aqui.
O mundo dá voltas.

Doria quer ser candidato na Justiça, o que significa ninguém com ele na campanha. Não se faz campanha de conquista na imposição. Era o que Doria cometia durante o governo. Em vez de incluir, excluía e impunha. Acabou quase sozinho, melancolicamente — para quem foi prefeito e governador. Aqui se faz, aqui se paga.

Lula não é uma esperança, é uma opção diante de Tânatos.

Assim, surge Lularcia, conforme realidade política herdada.

Eles precisam acender a chama, que ainda não brilhou, nem como faísca. Legando-nos, por ora, uma eleição sem brilho. Sem inspiração, arrebatamento.

Na vida só resta seguir, um ritmo, um pacto, um rio afora.