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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Simone Tebet tem até 30 de junho para se viabilizar, ou válidos decidem

5.mai.2021 - A senadora Simone Tebet (MDB-MS), durante questionamento na CPI da Covid - Jefferson Rudy/Agência Senado
5.mai.2021 - A senadora Simone Tebet (MDB-MS), durante questionamento na CPI da Covid Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

24/05/2022 08h55

Com o abandono de João Doria (PSDB), se Simone Tebet (MDB) não se viabilizar até 30 de junho, a eleição terá um segundo turno no primeiro.

Será Lula x Bolsonaro, defeitos de ambos inclusos.

E, então, a realidade será:

  • Quem votar em qualquer candidato que não Lula favorece Bolsonaro na sua ida para o segundo turno. Todo voto válido, que não for Lula, é impedimento para Lula alcançar 50% mais um.
  • Quem votar em branco, anular ou se abstiver, vota em Lula. Todo voto inválido diminui o todo válido e facilita Lula, com 44% ou 45%, a vencer a eleição já na primeira rodada.

Hoje, estamos assim: ou Tebet pega ou não pega, ou rola a terceira via ou esta é extirpada antes do horário eleitoral.

Quando o horário chegar, em agosto, teremos uma batalha de acusações e respostas entre Lula e Bolsonaro, não só para conquistar votos, mas para desviar os votos frustrados para as direções acima mencionadas.

Não é só aquisição, é como reciclar rejeição

Ambas as campanhas, de Lula e de Bolsonaro, sabem disso e já têm, ainda de forma não estruturada, "departamentos" cuidando desses desideratos.

Para Bolsonaro, é importante que Ciro Gomes (PDT) mantenha os votos, até cresça, porque os votos que vão para ele nunca seriam de Bolsonaro. Então, se forem para Ciro, ajudam Lula a não atingir o número necessário para vencer de cara.

E aí vem a guerra do segundo turno. Que os bolsonaristas temem menos do que a derrota no primeiro. Por não controlarem o fluxo de votos.

No lado de Lula, os votos que ele não consegue conquistar, por rejeição imensa, melhor que sejam anulados.

Alguns eleitores de Ciro, Tebet e André Janones (Avante), não poucos, não toleram Lula, nem vestido de noivo, de azul. Então, o departamento do PT especializado na ação estratégica trabalhará para que eles caminhem para a invalidação.

Esta é a eleição se Tebet não emergir do 1% até 30 de junho, tempo em que os partidos precisam cuidar das convenções de julho.

A eleição de 2022 é totalmente atípica e não adianta clamar porque a sociedade quis assim, desde 2018: bipolarização.

A curva normal de votos, com o centro repleto e os extremos com a escassez que permeava os radicais, se tornou uma curva em U com o centro magro e os extremos recheados.

É uma decisão da sociedade —cabe estudar o porquê—, mas não adianta chorar, como dizia o narrador esportivo. Estamos nessa bifurcação distópica para muitos, mas real.

Tebet até agora ficou na moita, muito mais preocupada com as articulações de bastidores, sabendo que era o nome menos rejeitado, mas tem um rival que não ganha, mas atrapalha: Ciro, o convencido.

Ciro é convencido em termos de vaidade pessoal e em termos da irracionalidade da virada que pode dar, após estar candidato há 4 eleições, ser sobejamente conhecido e ter acesso à mídia. E crê no engodo João Santana. Um erro crasso. Inteligência não é valor absoluto.

Tebet não elaborou nenhuma plataforma, apenas tocou em algo liberal, com a escolha da Posto Ipiranga respectiva, e não temos mais nada de útil sobre suas ideias. Só platitudes, como não ir nem para esquerda nem para direita. Como o velho e surrado buraco não é de direita nem de esquerda de eleições municipais.

É sim. Buraco de esquerda se tapa com órgão do governo, de direita, com a iniciativa privada.

Simone Tebet precisa explicitar seu projeto para o Brasil e tal causará fricção com os aliados que pretende ter.

Doria é neoliberal; Janones, não. Meio populista indefinido que crê que Macron preside a Argentina. Ciro é o oposto do neoliberal.

Ou seja, Tebet não leva tudo com a ladainha nem de esquerda nem de direita. Quando explicitar os planos ou ela vai para cá ou para lá.

É muito difícil ela passar de 10%, até 5% pode chegar logo, o que não significa subir a segunda montanha, de 5% a 10%, e atingir o cume dos dois dígitos, quando passaria a ser visível e viável.

Uma coisa não leva à outra necessariamente.

A eleição 2022 tende a ser, a partir de julho, Votos Inválidos x Votos Válidos, com Lula e Bolsonaro lidando espertamente com suas rejeições.

Lula encaminhando a sua para invalidez, Bolsonaro para os outros candidatos, fazendo campanha para Ciro e Tebet, e Janones, em MG.

Curioso e complicado.