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José Luiz Portella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A execução pública de Genivaldo, com a presença de Bolsonaro

Homem em câmara de gás da PRF em Sergipe - Reprodução
Homem em câmara de gás da PRF em Sergipe Imagem: Reprodução
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José Luiz Portella

Sobre o Autor - Pós-doutorando em sociologia pela FFLCH-USP. Doutor em ciências- área história econômica Doutor em história econômica FFLCH-USP Engenheiro civil -especializado em gestão, orçamento e planejamento urbano; ocupou cargos públicos nos governos federal, estadual e municipal pesquisa medição do impacto das políticas públicas.

Colunista do UOL

28/05/2022 09h11

Assistimos pela TV, por vídeo, o que um grupo de pessoas acompanhou ao vivo: uma execução. Com tortura agregada.

É justo generalizar para toda a PRF tal procedimento? Não. A princípio.

O vídeo do instrutor mordaz ensinando os policiais a "deixarem as vítimas mansinhas", sendo verdadeiro, nos conduz para algo mais sistêmico na Polícia Rodoviária Federal.

A PRF antigamente, era considerada a polícia mais humana e colaborativa. Fazia o papel que a sociedade necessita das polícias: segurança, acolhimento do cidadão honesto (maioria), com autoridade, sem violência. Tarefa de preservar a vida nas estradas.

Michel Gherman, professor de sociologia da UFRJ, assessor do Instituto Brasil-Israel (IBI), afirmou: "Não é que parece com nazismo, em termos de prática de assassinato, é nazismo".

Da polícia admirada pela população, pela sua conduta amena e acolhedora, excluindo os achacadores, que pediam dinheiro para livrar a multa, à prática da execução sumária de homem que pilotava uma moto sem capacete, como o deputado Vitor Hugo andou na garupa de Bolsonaro, em campanha aberta, há um Bolsonaro no meio.

A conduta de Bolsonaro tem mudado o país, já violento na sua constituição, para pior. Mais violento, menos acolhedor, menos empático, mais hostil, mais agressivo, mais irracional, menos civilizado, menos culto.

Bem pior. E, o ato perpetrado contra Genivaldo é também a antessala do que Bolsonaro e agregados pretendem realizar na contestação à derrota, cada vez mais palpável.

A cultura, em sentido amplo, sempre foi forma de civilizar a violência humana.

Bolsonaro é inculto por adoção, escolha. Ele menoscaba a cultura, como a grande maioria dos fascistas.

Os nazistas procuram usá-la para seus propósitos, como recentemente pareceu naquele vídeo do ex-secretário de Cultura de Bolsonaro, com a ópera Lohengrin de Wagner ao fundo e inspiração conteudista de Goebbels, a pregar a "arte nacional heroica e imperativa".

Bolsonaro, desde o momento que surgiu "milico sindicalista", e involuiu para a icônica figura, a soltar rojão para acordar delegação estrangeira, prática de barras bravas de torcidas organizadas, sempre foi um militante da violência, das armas, da hostilidade, com as quais escalou espertamente um lugar ao pódio, aproveitando-se do cansaço da sociedade com o PT. Que abusou.

Pois aquele comportamento desastrado do PT, desde a negação para assinar a Constituição de 88, até tudo o que se passou, nos conduziu a Bolsonaro.

Lula e o PT devem desculpas compungidas e contrição eterna.

O problema é que assistimos uma execução, que não é um ato isolado, e apesar da indignação de muitos, vamos permitir que isso passe, como fosse mais uma briga em campo de um GreNal. Não foi.

O Brasil é pródigo em chacinas, reconheça-se, antes mesmo de Bolsonaro, e isso que é mais grave, porque Bolsonaro contribui para potencializar e alavancar nossos maiores defeitos como sociedade: desigualdade e violência.

Torna-se uma ação nefasta.

A sociedade, que não dá clique para a pobreza, é estimulada a aceitar qualquer absurdo, ainda que hediondo ou bizarro, porque a frequência é tanta, que caímos na banalidade do mal de Arendt, sobre o nazismo.

E é ele que bate em nossa porta, agora, insistentemente.

A PRF de Bolsonaro, pelo jeito do vídeo de treinamento, incorporou a bestialidade da polícia americana. O raio do colonialismo cultural, onde figuras do Congresso, rendem-se a bajular Steve Bannon e Olavo de Carvalho.

Um cidadão com problemas mentais, que não fazia nada de mal, a não ser pilotar sem capacete, pelo que deveria ser justamente multado sem "coitadismo", como Vitor Bolsominion Hugo, candidato a governar Goiás. Não poderia passar disso. Qual é a pessoa que não tenta se defender fisicamente quando agredida? Reação espontânea humana. Os policias sabiam o que estavam fazendo.

O pior é que esse tipo de comportamento impulsionado por Bolsonaro está retirando a focinheira dos nazistas, fascistas, que existem em nossa sociedade, e que as pessoas acharam que o fim da ditadura teria eliminado; Ledo engano.

São pessoas capazes de em uma mesa de clube, durante momento de confraternização num fim de semana, tomando um aperitivo amistoso e comendo petiscos, apregoarem, com a tranquilidade de quem deseja um feliz natal, que a ditadura deveria "ter matado mais" e que Bolsonaro é a solução para o Brasil.

Engolem o Centrão que criticavam, como o débil general heleno, com h minúsculo, como se fosse uma necessidade para manter "a ordem unida bolsonarista" no Poder.

Estamos diante do caos, sem perceber, sem atinar.

A execução da PRF não é só um ato hediondo a causar repulsa, é um tipo de comportamento, que está sendo implantado com a conivência dos "criadores de narrativas para bolsonaristas" na imprensa, e com a concordância de pseudo liberais, iliberais. É preciso acordar.

Ajudaria muito a tal resistência contra a barbárie nazifascista, que Lula não se aproveitasse desse triste ensejo só para se eleger, e se pusesse a fazer aquilo que apregoa e NÃO FAZ.

Disse que o Estado precisa parar de falar sim aos banqueiros. Ele tem razão. Mas, não fez.

Entregou os primeiros anos de governo no Lula 1 a Palocci, Meirelles e ao mercado. Álacre.

Depois, patrocinou Trabuco, um banqueiro de primeira hora, achegou-se a André Esteves, com muita intimidade, abençoou Joaquim Levy, além de ser alguém que mais disse sim aos banqueiros e empresários, e enriqueceu o 0,5% mais rico da sociedade. Foi um patrocinador dos banqueiros.

Lula, no conforto de ser um antiBelzebu, único que tem a possibilidade de nos afastar dessa catástrofe, precisa deixar de ser "eshperto" e começar a ouvir a si mesmo.

Melhor fazer algo que mude o imenso controle que banqueiros têm do Brasil, com vantagens muito mais para si próprios, em nome de um Brasil "equilibrado! (para eles) e desiquilibrado na distribuição de riqueza.

Fazendo isso sem loucura fiscal, mas com ardor no propósito, que é possível.

É só deixar de financiar gasoduto de 110 bilhões para iniciativa privada e Centrão, cortar 100 bilhões de incentivos fiscais para ricos, sem retorno para o país, e eliminar o Orçamento Secreto, efetuando um Orçamento Novo Base Zero,voltado para quem mais precisa.

Lula prega, mas não faz até o fim.

Gosta de ser aceito pela elite econômica e posar de azul num casamento em hora propícia, depois de viver há três anos no mesmo teto com a noiva.

Ver a noiva vestida antes do casamento dá azar.

É preciso reagir à execução que vimos, porque como disse Jung:

O que não elaboramos, vivemos como destino.