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Veja como evitar que polarização invada seu Natal

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

25/12/2019 03h15

Pesquisa do instituto Datafolha confirma: a polarização faz mal à alma. Nada menos que 51% dos usuários do WhatsApp evitaram compartilhar mensagens sobre política para fugir de brigas com a família ou com os amigos. Uma em cada cinco pessoas deixou de seguir ou bloqueou o perfil de familiar ou amigo por discordar de posições políticas. O Natal é uma boa ocasião para analisar esse fenômeno.

A coisa vem de longe. Começou com PT e PSDB, os partidos que monopolizaram as eleições presidenciais por duas décadas. As disputas foram ganhando uma aparência de briga de pátio de colégio. Na sucessão de 2014, a coisa desandou. Tucanos diziam que petistas roubaram no mensalão e no petrolão. Petistas respondiam que tucanos assaltaram no mensalão mineiro, no escândalo dos trens do metrô paulista e nas licitações ajeitadas por Paulo Preto. De repente, chegou a delação da Odebrecht para esclarecer que os dois lados tinham razão.

Dilma foi deposta. Lula virou colecionador de ações penais, fez um estágio na cadeia. Aécio, Alckmin e Serra viraram material radioativo de processos criminais. Os tucanos, incorporados ao governo Temer, acabaram como força auxiliar de um PMDB apodrecido. E o PT subiu ao palco de 2018 num novo papel —o papel de cabo eleitoral do capitão Bolsonaro. Inaugurou-se uma nova polarização: de um lado os órfãos do poder petista. Do outro, os devotos do bolsonarismo.

Partido de um líder só, o PT pede aos brasileiros que façam como Lula, se fingindo de bobos como se nada tivesse acontecido. E Bolsonaro, líder sem nenhum partido, faz pose de político antissistema depois de usufruir dos vícios do sistema político por 30 anos. Na campanha eleitoral, enrolou-se na bandeira da ética. Agora, abraçado ao amigo Queiroz e ao filho Zero Um, Bolsonaro exibe uma imagem já meio rachadinha.

Se a polarização ensina alguma coisa é o seguinte: todas as premissas sobre as quais o brasileiro construiu as suas ilusões políticas depois da redemocratização do país precisam no mínimo pegar um pouco de ar. Enquanto os devotos industrializam o ódio nas redes sociais, lendas e mitos exercitam a hipocrisia. Se você é do tipo que perde um familiar ou um amigo em nome do fanatismo político, não se preocupe. Antes de arrancar a carótida e chupar o próprio sangue, tornando-se um vampiro de si mesmo, saia das redes sociais e converse um pouco. Aproveite o Natal. Boa noite.

Josias de Souza