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Veja por que Bolsonaro errou ao avalizar Trump

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

07/01/2020 20h48

Em política, tudo é permitido, exceto deixar-se surpreender. Na crise que eletrifica as relações entre Estados Unidos e Irã Jair Bolsonaro revelou-se, uma vez mais, um governante com duas características bem marcantes: ele não hesita em exibir a satisfação que sente por estar no volante. Mas passa frequentemente a impressão de que não dispõe de um itinerário. A exemplo do que ocorreu em tantos outros episódios, Bolsonaro entrou nessa encrenca na contramão do interesse nacional.

A fumaça do ataque aéreo com drone que fulminou o general do Irã Qassem Soleimani ainda não havia se dissipado quando o Itamaraty divulgou uma nota apoiando incondicionalmente a ação ordenada por Donald Trump. O texto firmado pelo chanceler Ernesto Araújo com o consentimento de Bolsonaro não se limitou a avalizar a decisão da Casa Branca. Tratou a execução do comandante da unidade de elite da Guarda Revolucionária do Irã como parte da luta contra o "flagelo do terrorismo".

O contencioso que envenena há décadas as relações de Washington com Teerã comporta interpretações complexas. Mas o papel do Brasil nesse contencioso é simples como o ABC. A, o Brasil tem negócios com o Irã que rendem ao país mais de US$ 2 bilhões ao ano. B, embora superavitária, a balança comercial brasileira registrou em 2019 uma queda de 19,6% em relação ao ano de 2018; C, às voltas com a necessidade de potencializar o crescimento de sua economia interna, o Brasil não pode se dar ao luxo de jogar contratos de exportação pela janela.

Surge, então, a pergunta de US$ 2 bilhões: o que ganha o Brasil com o apoio do governo Bolsonaro à ação militar ordenada por Trump contra o Irã? A resposta é, novamente, simples: Nada. O regime de Teerã cobrou explicações da diplomacia brasileira. Em reação, Bolsonaro disse que aguarda a chegada do chanceler Ernesto Araújo do recesso para decidir o que fazer. A equipe do ministério da Agricultura e o agronegócio brasileiro tremem ao perceber que, na briga entre Estados Unidos e Irã, o governo brasileiro ataca o interesse nacional.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza