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Na era Trump, primeiro front de batalha é o Twitter

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Imagem: pixabay
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

08/01/2020 04h46

Há uma velha máxima segundo a qual a primeira vítima nas guerras é sempre a verdade. Num passado remoto, era preciso aguardar os despachos do front para decidir quem mentia mais, se os porta-vozes militares ou os correspondentes de guerra. Isso mudou drasticamente.

Na Guerra do Golfo, quando os americanos bombardearam Bagdá sob as câmeras da CNN, explosões e clarões passaram a ser despejados no tapete da sala em tempo real. Nessa fase, a plateia experimentou a ilusão de ter ficado mais próxima da objetividade.

Donald Trump inaugurou uma nova era. Agora, a batalha de versões é travada num campo sui generis: o Twitter. Começa antes da declaração formal de guerra. E dispensa intermediários.

Na noite passada, depois que o Irã despejou mísseis sobre duas bases americanas assentadas no Iraque, teve-se a impressão de que a guerra tornara-se inevitável. Entretanto, o mundo foi dormir sob os efeitos de dois tuítes que, em meio a expressões encrespadas, traziam palavras sedativas.

Num dos tuítes, escrito por um Trump inesperadamente calmo, lia-se o seguinte: "Por enquanto, tudo bem!". Noutro, redigido pelo chanceler iraniano Javad Zarif, vislumbrava-se: "Não buscamos uma escalada de guerra."

As almas mais otimistas enxergaram nas entrelinhas dos posts de Trump e Zarif a certeza de que a insensatez chegara ao limite. Apostava-se que os dois lados fariam concessões ao bom senso.

A dúvida produz insônias cruéis. Inversamente, uma boa certeza vale como um barbitúrico irresistível. Sob o impacto dos tranquilizantes servidos no Twitter, o planeta adormeceu menos intranquilo.

O problema é que, se as guerras e as redes sociais ensinaram alguma coisa foi o valor da desconfiança. "Farei uma declaração amanhã de manhã", anotou Trump no arremate do seu post. "Iremos nos defender contra qualquer agressão", avisou Zarif.

Quer dizer: embora houvesse de madrugada a impressão de que nada ocorreria, a instabilidade da conjuntura continuava indicando que nada poderia se transformar num vocábulo que ultrapassa tudo. No instante em que você lê esse texto, Washington e Teerã já podem ter evoluído do lexotan para os mísseis.

Há no ar um excesso de versões sobre a (i)lógica que levou Trump a ordenar a execução do general iraniano Qassem Soleimani. Ou sobre o oportunismo que levou o regime dos aiatolás a assumir a autoria da retaliação em vez de terceirizá-la a uma das milícias terroristas organizadas pelo morto que virou "mártir".

Com tantas versões, a questão acaba sendo não qual é a verdadeira, mas qual é a mais conveniente para cada enredo. Tudo muda, tudo se transforma. Só uma coisa continua imutável: seja qual for a plataforma —as folhas enviadas do front, a tela da tevê ou o cristal líquido das redes sociais— a primeira vítima nas guerras continua sendo a verdade.

Josias de Souza