PUBLICIDADE
Topo

Wajngarten teve impulso de Carlos e fritou ministros antes de virar alvo

O chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten - André Coelho/Folhapress
O chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten
Imagem: André Coelho/Folhapress
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

16/01/2020 15h59

Guindado à chefia da Secretaria de Comunicação da Presidência como solução para a dificuldade de relacionamento de Jair Bolsonaro com a imprensa, Fabio Wajngarten tornou-se parte do problema em menos de dez meses. Virou um típico caso de feiticeiro que termina enfeitiçado.

Wajngarten ascendeu ao posto em abril de 2019 com o apoio do vereador carioca Carlos Bolsonaro. Beneficiou-se da carbonização de um ministro palaciano, Gustavo Bebianno. Participou da fritura de outro ministro com gabinete no Planalto, o general Carlos Alberto Santos Cruz. Deu no que está dando.

Em vez de servir de ponte entre o Planalto e a mídia, Wajngarten associou-se a Bolsonaro nos ataques à imprensa. Virou alvo de Carlos, o filho Zero Dois do presidente. Revelou-se um colecionador de desafetos. Um deles ironiza, em privado: "Vaidoso, o Fabio transformou sua vitrine num forno de micro-ondas."

Conflito de interesses na atuação pública

A temperatura subiu ao redor do secretário de Comunicação da Presidência graças a uma reportagem da Folha. Nela, revelou-se que Wajngarten recebe, por meio de uma empresa da qual é sócio majoritário, dinheiro de emissoras de TV e de agências de publicidade contratadas pela secretaria que dirige.

O conflito de interesses é nítido, pois Wajngarten distribui a verba de propaganda do Planalto. Mais: Acompanha as contas dos demais órgãos federais. Apenas no ano passado, aplicou R$ 197 milhões em campanhas publicitárias.

Quando Wajngarten chegou ao Planalto, havia um consenso quanto à existência de uma crise no setor de comunicação. Planejava-se buscar aliados e evitar confusões.

Com o tempo, o assessor tornou-se uma modalidade sui generis de conselheiro, do tipo que quer ver o sangue daqueles que o chefe enxerga como inimigos.

Associou-se a Bolsonaro nos ataques à Folha e ao Grupo Globo. Chegou mesmo a sugerir boicote dos anunciantes. Na gestão de Wajngarten, a audiência deixou de ser um critério para a aplicação de verbas publicitárias oficiais. Subiram os repasses ao SBT e à Record —emissoras da predileção de Bolsonaro—, em detrimento da Globo.

Bolsonaro ataca a Folha e diz que chefe da Secom continua no cargo

TV Folha

Santos Cruz e Bebianno ficaram no caminho

Enquanto esteve no comando da pasta da Secretaria de Governo, o general Santos Cruz impediu o desvirtuamento técnico do orçamento publicitário. Superior hierárquico da Secom, vivia às turras com Wajngarten. A exoneração do general deu mais autonomia ao secretário.

A queda de Santos Cruz foi urdida numa parceria do polemista Olavo de Carvalho com Carlos Bolsonaro. Influenciado pelas opiniões do guru e, sobretudo do filho, o presidente levou à bandeja o escalpo de um amigo de três décadas. Foi o segundo ministro palaciano a ser defenestrado em seis meses.

Antes de Santos Cruz, afastara-se Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral). Durante a disputa presidencial de 2018, Bebianno torcera o nariz para as tentativas de Wajngarten de influenciar nos rumos da campanha. O agora secretário conhecera Bolsonaro em 2016, num jantar na casa do empresário Meyer Nigri, da construtora Tecnisa.

Depois, Wajngarten organizou outros encontros de Bolsonaro com empresários. Achegou-se um pouco mais ao capitão depois da facada. Visitava-o amiúde no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Nessa época, Carlos Bolsonaro, que não desgrudava do pai, encantou-se com o visitante.

Na mesma época, Carluxo, como o Zero Dois é chamado na intimidade, cavou os pretextos que levaram à demissão de Bebianno. Entre eles uma audiência concedida pelo então ministro a um diretor da Rede Globo.

Fabio Wajngarten se aproximou do presidente Jair Bolsonaro ainda durante a campanha - UESLEI MARCELINO/REUTERS
Fabio Wajngarten se aproximou do presidente Jair Bolsonaro ainda durante a campanha
Imagem: UESLEI MARCELINO/REUTERS

Carlos Bolsonaro, amigo e inimigo

No final de 2019, um ano em que a principal marca da oposição foi a inoperância, Carlos Bolsonaro decidiu acumular as atribuições de amigo e inimigo do governo. Considerando-se o principal defensor da gestão do pai, voltou a lamentar que o setor de comunicação do Planalto não siga o seu exemplo.

Em postagem nas redes sociais, o filho do presidente anotou ser "lamentável" ter de lutar "para mostrar o que tem sido feito de bom 24h ao dia, enquanto se vê uma comunicação do governo que nada faz". Foi um ataque direto ao trabalho de Wajngarten.

Ironicamente, Wajngarten festejara meses antes ataques do mesmo nível dirigidos por Carluxo ao porta-voz da Presidência, o general Otávio do Rêgo Barros. O chefe da Secom e o segundo filho uniram-se nas críticas aos cafés que o porta-voz organizava semanalmente para aproximar Bolsonaro dos jornalistas. À mesa, o presidente pronunciava frases que eletrificavam o noticiário, desgastando-o.

"Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira", disse Bolsonaro, por exemplo, numa mesa em que os garçons do Planalto serviam a jornalistas estrangeiros guloseimas custeadas pelos brasileiros em dia com o Fisco.

"Desses governadores de Paraíba, o pior é o do Maranhão", balbuciou o presidente, num lapso captado pelas câmeras da empresa oficial de comunicação. Comum no Rio de Janeiro, onde todo nordestino é um "paraíba", a metonímia veio acompanhada de um complemento que revelou pendores antirrepublicanos em relação a Flávio Dino, o governador comunista do Maranhão:

"Tem que ter nada pra esse cara". Em verdade, sonegam-se recursos federais não para "esse cara", mas para os "paraíbas" do Maranhão.

Irritado ao ver o pai pendurado nas manchetes de ponta-cabeça, Carlos Bolsonaro investiu contra os cafés de Rêgo Barros: "Não critico homens mas modus operandi, me colocando sempre em situações difíceis", ralhou o Zero Dois nas redes sociais.

Carluxo arrematou: "Quando a militância espontânea cansar de defender o governo, que faz um bom trabalho, nada sobrará, pois sua comunicação é e pelo jeito continuará sendo ruim e então seremos massacrados pela mídia."

Jair Bolsonaro fala a jornalistas diante do Palácio da Alvorada, em Brasília - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Jair Bolsonaro fala a jornalistas diante do Palácio da Alvorada, em Brasília
Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

Dos cafés aos portões do Alvorada

Sob ataque, Rêgo Barros recolheu-se. Por inspiração de Wajngarten, os cafés matinais foram substituídos por entrevistas, concedidas defronte do portão do Palácio da Alvorada. Desde então, as polêmicas passaram a soar não semanalmente, mas em ritmo praticamente diário.

Sem se dar conta de que o problema está na língua do pai, Carluxo agora direciona seus ataques ao ex-queridinho Wajngarten. A fritura do chefe da Secom tende a ser demorada, pois Bolsonaro não costuma afastar quem briga com seus hipotéticos inimigos. Nesta quinta-feira, o presidente deu de ombros para as revelações da Folha:

"Se foi ilegal, a gente vê lá na frente. Mas, pelo que vi até agora, está tudo legal, vai continuar. Excelente profissional. Se fosse um porcaria, igual alguns que tem por aí, ninguém estaria criticando ele", disse o presidente ao anunciar, na saída do Alvorada, que Wajngarten será mantido no cargo.

Josias de Souza