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Flávio Bolsonaro vê STF como Pasárgada premium

SERGIO LIMA/AFP
Imagem: SERGIO LIMA/AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/01/2020 20h49

Manuel Bandeira traduziu os anseios nacionais quando escreveu sobre seu desejo de fugir para Pasárgada, onde era amigo do Rei. É o que todos querem. Agora, Pasárgada mesmo, além da sonhada, é aquela terra em que o sujeito não é apenas amigo, é filho do Rei —como o primogênito Flávio Bolsonaro.

Ser membro da família real —que manda e, se quiser, desmanda no país— é estar dentro de uma bolha inexpugnável, onde a conveniência e a cumplicidade sobrevivem à retórica moralizadora que ameaça os negócios e as mumunhas do poder.

Na Pasárgada convencional, aquela ansiada pelo poeta, os encantos têm um quê de trivial: a ginástica, a bicicleta, o burro brabo, o pau-de-sebo, o banho de mar, a beira do rio... Quando se está triste, com uma dessas tristezas de não ter jeito, o amigo do Rei tem a mulher desejada na cama escolhida.

Na Pasárgada premium, um membro da família real deprimido, em apuros, com o Ministério Público no seu encalço, dispõe de algo especial, muito especial, especialíssimo: acesso privilegiado ao Supremo Tribunal Federal. Flávio Bolsonaro está, de novo, nas mãos da magistratura suprema.

Num país como o Brasil, ser amigo do Rei significa pertencer à minoria que tem influência no governo. Ser filho do monarca significa integrar uma minoria dentro da minoria, com assento no Parlamento e acesso à Suprema Corte. Nesse patamar, a coisa não vai na base do vai ou racha. Ou, por outra, a coisa vai mesmo que rachada —ou rachadinha.

Investigado por peculato e lavagem de dinheiro, o primeiro-filho já foi brindado com duas suspensões do processo. Uma foi providenciada por Dias Toffoli. Outra, por Gilmar Mendes. Nesta terceira investida, Toffoli requisitou no sábado (18/01) a manifestação do procurador-geral da República Augusto Aras.

Neste domingo (19/01), Toffoli passou o bastão do plantão judiciário para o vice-presidente do Supremo, Luiz Fux. Ao receber o documento de Aras, Fux pode decidir sobre o novo pedido de suspensão do processo contra o filho do soberano. Ou, se preferir, pode enviar a encrenca para o relator Gilmar, que retorna do recesso em fevereiro.

De concreto, por ora, apenas a certeza de que Flávio Bolsonaro é capaz de tudo, exceto de levar à balança do Judiciário meio quilo de explicações. Na Pasárgada da bolha inexpugnável, onde a conveniência e a cumplicidade prevalecem sobre a retórica moralizadora, a família real acha que não deve nada a ninguém, muito menos explicações.

Josias de Souza