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Para 1% dos alunos, MEC foi 100% incompetente

Reprodução/Twitter
Imagem: Reprodução/Twitter
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/01/2020 05h24

O grande erro da natureza é a incompetência não doer. Se doesse, Abraham Weintraub estaria em apuros, pois aquilo que ele chamou de "melhor Enem de todos os tempos" resultou apenas numa evidência de que a inépcia não tem fronteira ideológica.

Como a improficiência é indolor, o ministro sentiu-se à vontade para exibir seus dotes de gaitista nas redes sociais três horas depois de divulgar um vídeo no qual admitiu a existência de erros de correção das provas do Enem. Do seu lado, o irmão Arthur Weintraub, ao violão, desafinava em "O Portão", de Roberto Carlos.

Recém-chegado das férias, o ministro anotou na legenda do vídeo: "Apesar da gritaria" da Folha e do Grupo Globo, "eu voltei, agora pra ficar..." Foi como se desdenhasse da hipótese de Jair Bolsonaro demiti-lo por conta da falha no Enem.

Com a chegada de Weintraub à Esplanada, os bons modos sumiram do MEC. Mal-educado, o ministro da Educação exibe a ferocidade de um janízaro. Trata opositores aos pontapés, desrespeita jornalistas, ofende a língua portuguesa e agride a inteligência alheia.

Entretanto, é "imprecionante" —na gramática de Weintraub— o requinte, o refinamento, o cuidado, o extremo acabamento com que se exerce a incompetência nesta era da guerra bolsonarista contra o "marxismo cultural".

Um acerto raramente pode ser melhorado. Mas um erro tem sempre a possibilidade de ser mais errado. Após admitir o erro, Weintraub tentou minimizá-lo, piorando o que já era muito ruim.

"Um grupo muito pequeno de pessoas teve o gabarito trocado", disse o ministro no vídeo que divulgou na manhã de sábado (18/01). "É uma inconsistência fácil de ser consertada. Estamos falando aí de alguma coisa com 0,1% das pessoas que fizeram, dos milhões."

Numa evidência de que há males que vêm para pior, o presidente do Inep, Alexandre Lopes, mencionaria números diferentes numa entrevista concedida na sequência. "A gente estima que isso chegue a menos de 1%, menos de 30 mil. A gente acha que não chega a nem a 9 mil pessoas".

Na conta de Weintraub (0,1%), o número de prejudicados com o erro na correção das provas do Enem seria de 3.900 estudantes. Na contabilidade do auxiliar do ministro (1%), a quantidade de prejudicados poderia chegar a 39 mil alunos. Weintraub absteve-se de participar da entrevista de Alexandre Lopes. Preferiu tocar gaita.

Ao situar suas estimativas num intervalo que decresce de "menos de 30 mil" para alguma coisa que "não chega nem a 9 mil pessoas", o que o presidente do Inep declara, com outras palavras, é mais ou menos o seguinte: "Nós não temos a mais remota ideia do tamanho do buraco em que estamos metidos."

Por enquanto, as estatísticas oficiais comprovam apenas uma coisa: a diferença entre a genialidade e a incompetência dos dirigentes do MEC é que a genialidade tem limites. A limitação obscurece até o óbvio: para pelo menos 1% da rapaziada que suou a camiseta preparando-se para o Enem, o governo foi 100% incompetente na hora de corrigir as provas.

Não é a primeira vez que o Enem vira problema. Quem acompanha a história do exame fica com a impressão de que já não há pecados originais nessa área. Mas é inédita a forma como Weintraub conseguiu transformar em fiasco o "melhor Enem de todos os tempos." O ministro ainda não percebeu. Mas o dicionário é o único lugar onde os fogos vêm antes do trabalho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza