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Silêncio de Bolsonaro sobre o Enem é insensato

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

21/01/2020 00h44

Até os surdos se espantam com a eloquência do silêncio de Jair Bolsonaro diante dos erros cometidos na correção das provas do Enem. Na sexta-feira, o ministro Abram Weintraub disse em entrevista que, sob Bolsonaro, a pasta da Educação entregou o melhor Enem de todos os tempos. No dia seguinte, manhã de sábado, o mesmo Weintraub divulgava um vídeo para informar que ocorrera um erro na correção das provas do Enem.

Sempre tão loquaz, Bolsonaro manteve-se quieto. Frequentou as redes sociais durante todo o final de semana. Mas não dedicou uma mísera palavra à encrenca do Enem. Bolsonaro assistiu passivamente à encenação de Abram Weintraub, seu ministro "imprecionante", com "c" de Casa. Feroz com os adversários, o ministro da Educação foi condescendente consigo mesmo. Ele minimizou o problema.

Poucos estudantes foram afetados, declarou Weintraub desde a primeira hora. Mencionou 0,1% dos participantes do exame. Ora, ainda que houvesse um único estudante prejudicado, para aquele aluno o MEC teria sido 100% incompetente. O erro ocorreu na gráfica, esquivou-se o ministro, como se isso o eximisse de responsabilidades.

Há concordância no silêncio de Bolsonaro. Se subisse no caixote das redes sociais para ralhar com o ministro, o presidente teria de reconhecer problemas que infelicitam a área da Educação. E Bolsonaro já deu inúmeras demonstrações de apreço pela falta de preparo do seu ministro.

O que Bolsonaro não notou é que há também no seu silêncio uma boa dose de insensatez. Não é a primeira vez que ocorrem problemas no Enem. Mas é inédita a ocorrência de erros naquele que seria o melhor Enem de todos os tempos. Nesta segunda-feira, Weintraub chamou a lambança de "susto". Disse que não houve má-fé no erro. E sentenciou: "Bola pra frente".

Bolsonaro cometerá um grave erro se não exigir a identificação e punição dos responsáveis por tornar a vida de milhares de estudantes mais complicada do que deveria ser.

Josias de Souza