PUBLICIDADE
Topo

E se Sergio Moro chamar o caminhão de mudança?

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/01/2020 23h39

No jogo de gato e rato que trava com Sergio Moro, Jair Bolsonaro se deu conta de que pode ter mais a perder do que o seu ministro. Menos de 24 horas depois de declarar que cogita desmembrar o Ministério da Justiça, retirando de Moro a área da Segurança Pública, Bolsonaro afirmou que a chance de algo assim acontecer "é zero". Diz-se que o presidente recuou. Engano. Na frase seguinte, Bolsonaro esclareceu que essa é apenas a sua posição momentânea. "Não sei o amanhã, porque na política tudo muda", disse ele.

Entre uma posição e outra, Bolsonaro foi submetido a uma avalanche de críticas nas redes sociais, seu habitat natural. Os gênios que cercam Bolosonaro no Planalto começaram a fazer em voz alta uma pergunta singela: o que acontecerá se Sergio Moro chamar o caminhão de mudança e sair batendo a porta? A pergunta indica que Bolsonaro meteu-se numa enrascada.

Tendo ciência de que o passado político da primeira-família estava encostado em rachadinhas e nas relações perigosas com Fabrício Queiroz e milicianos do Rio, Bolsonaro chamou o xerife da Lava Jato para cuidar do combate à corrupção e ao crime organizado. Agora, tenta cortar as asas de Moro. Ironicamente, o ex-juiz contribui para a própria fritura. Moro esqueceu de traçar limites a partir dos quais ele não recuaria. Sofre calado uma sequência de humilhações.

No caso de Sergio Moro, Bolsonaro evolui da fritura para o esquartejamento. Arrancou-lhe o braço do Coaf. Manteve os os dedos da direção-geral da Polícia Federal, mas substituiu o anel da superintendência da PF no Rio de Janeiro, onde Flávio Bolsonaro enfrenta sua tormenta judicial. Quebrou o pé do minsitro ao sancionar o juiz das garantias. Agora, adia a amputação da Segurança Pública por razões estratégicas.

Quem olha de longe fica com a impressão de que Bolsonaro e Moro, ambos infectados pelo vírus de 2022, perdem o rumo. Engano. Há um rumo na encrenca. O rumo da crise. O risco que Bolsonaro corre é o de inverter o jogo. Chamou Moro para o governo com o argumento de que daria a ele condições para melhorar sua biografia. Agora, oferece a Moro a oportunidade ganhar respeito pedindo o boné.

Josias de Souza