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Bolsonaro precisa retirar o BNDES do palanque

Wilton Junior/Estadão Conteúdo
Imagem: Wilton Junior/Estadão Conteúdo
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

29/01/2020 15h52

É preciso retirar o BNDES do palanque. Gustavo Montezano é o segundo presidente da instituição na era Bolsonaro. O "garoto", como o presidente da República se refere a Montezano, entrou no lugar do economista sênior Joaquim Levy, que caiu seis meses depois de tomar posse. Levy foi carbonizado por Bolsonaro porque disse que não havia caixa-preta a ser aberta no BNDES. E Montezano continua girando ao redor da mesma caixa vazia. E ainda tem de explicar a auditoria da caixa-preta.

Na entrevista que concedeu nesta quarta-feira, Montezano enrolou-se nos cifrões da auditoria. O BNDES vinha informando que a investigação custou R$ 48 milhões. Valor exorbitante se comparado aos R$ 19,6 milhões orçados em 2018, quando o governo de Michel Temer contratou a auditoria. Houve dois aditivos. Um deles foi assinado pelo próprio Montezano. Um dia depois de Bolsonaro ter afirmado que "parece que alguém quis raspar o tacho", o presidente do BNDES declarou que, em verdade, a auditoria custou R$ 42 milhões, não R$ 48 milhões. Atribuiu a diferença à variação cambial.

A certa altura, Montezano insinuou que está escorada na lei e nas normas toda a safadeza embutida nos contratos firmados durante os governos do PT para conceder empréstimos a juros camaradas a empresas e ditaduras companheiras. Segundo ele, construíram-se no Brasil "leis, normas, aparatos legais e jurídicos que tornaram legal esse esquema de corrupção." Considerando-se que não há caixa-preta, a pergunta que fica no ar é a seguinte: o que fez o governo Bolsonaro para desmontar esse aparato que favorece a safadeza?

Montezano disse que "o BNDES está pronto para virar a página" da caixa-preta. O problema é que cabe a Bolsonaro, não ao "garoto", dar a última palavra sobre essa matéria. Por enquanto, o presidente continua dizendo que há "coisas esquisitas" no banco. O Tribunal de Contas da União rumina suspeitas parecidas. Deu vinte dias para o BNDES forneça dados capazes de acomodar a auditoria da caixa-preta em pratos asseados. Ou Bolsonaro retira o BNDES do palanque ou logo passará da condição de denunciante para a posição de fornecedor de matéria-prima para os rivais que terá de enfrentar na sucessão de 2022.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza