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Flerte de Bolsonaro com Skaf inutiliza faca de Guedes

Fiesp/Divulgação
Imagem: Fiesp/Divulgação
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

04/02/2020 04h53

Onde está a faca de Paulo Guedes? Dias antes de sentar na poltrona de superministro da Economia, Guedes ameaçou submeter o peleguismo sindical do patronato a um inédito período de desmame. Discursando para uma plateia de empresários na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, Guedes franziu o cenho e empostou o timbre.

"O Brasil, um país rico, virou um paraíso de burocratas e piratas privados", declarou, fronte alta, o Posto Ipiranga. Ele indagou: "A CUT perde e aqui fica tudo igual?" Guedes mostrou a arma: "Tem que meter a faca no Sistema S também." Era lorota. Decorrido mais de um ano, a faca ainda não apareceu. É cada vez mais improvável que apareça um dia.

Nesta segunda-feira, Jair Bolsonaro faltou às solenidades de abertura dos trabalhos do Legislativo e do Judiciário. Preferiu visitar a sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp. Trocou chamegos verbais com o presidente da entidade, Paulo Skaf —um personagem que Guedes decerto definiria como "pirata privado", sempre a postos para usufruir das maravilhas do "paraíso de burocratas".

Skaf integra o rol da má fama dos líderes corporativos que se escoram nas caixas registradoras do Sistema S. Foi acusado de operar em suas campanhas políticas um caixa dois eleitoral. Coisa reforçada com dinheiro sujo da Odebrecht, negociado num jantar de Michel Temer com Marcelo Odebrecht, no Palácio do Jaburu.

Se estivesse presente ao repasto que Skaf mandou servir a Bolsonaro, Paulo Guedes talvez ficasse tentado a repetir na Fiesp a pergunta que fizera na sua coirmã do Rio de Janeiro: "A CUT perde e aqui fica tudo igual?"

Os sindicatos da CUT e seus assemelhados perderam a boquinha no governo de Michel Temer, com a aprovação da reforma trabalhista. Foi para o beleléu o dinheirinho fácil do imposto sindical. Mordia um dia de labuta dos empregados com carteira assinada. Rendia mais de R$ 3 bilhões a cada ano.

A valentia do gogó de Paulo Guedes fazia supor que o governo de Bolsonaro completaria o serviço, arrombando o cadeado do Sistema S. Neste caso, a mordida chega na forma de um percentual das folhas de pagamento das empresas. A coleta resulta numa caixa registradora exuberante. Coisa de R$ 16,5 bilhões ao ano. Um pedaço tem aplicação meritória. Outro naco financia o luxo, as mordomias, os desvios e a engrenagem que move o peleguismo sindical dos patrões.

No discurso de um ano atrás, Paulo Guedes oferecera uma oportunidade de entendimento. Numa negociação em que o sindicalismo patronal se dispusesse a negociar um desmame gradual, o corte no caixa do Sistema S ficaria ao redor dos 30%. Sem conversa, a facada seria de 50%.

Nesta terça-feira, Skaf derreteu-se por Bolsonaro: "Estamos apoiando o seu governo claramente, não por questão partidária, mas por questão de enxergarmos com clareza que estamos no rumo certo."

O capitão retribuiu: "Paulo Skaf já conseguiu emprego no meu governo: porta-voz. Ele me deixou sem discurso. Tocou em todos os pontos [da economia] que são importantes e que têm feito a diferença do Brasil."

Num ambiente assim, de aparência nupcial, a única faca que Paulo Guedes será autorizado a sacar é a faca de cortar o bolo.

Josias de Souza