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Sob Bolsonaro, passaporte brasileiro perde valor

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

04/02/2020 02h01

O conceito de um governo é construído a partir das escolhas que ele faz. No caso do resgate dos brasileiros que estão na cidade chinesa de Wuhan, epicentro do surto de coronavírus, Jair Bolsonaro flertou durante vários dias com a decisão errada. O presidente cogitou a sério a hipótese de ignorar os apelos dos brasileiros que querem voltar para o seu país.

Bolsonaro mudou de ideia por duas razões. Primeiro porque outros países começaram a fazer o óbvio, que é enviar aviões para resgatar os seus cidadãos. Segundo porque o descaso do governo brasileiro pegou mal no único lugar onde Bolsonaro ambiciona a perfeição: nas redes sociais.

A repercussão negativa aumentou depois que dez jovens brasileiros residentes em Wuhan colocaram o rosto num vídeo que foi pendurado no You Tube. Com esse vídeo, o problema ganhou cara. Uma rapaziada de aparência saudável leu uma carta aberta endereçada a Bolsonaro e ao chanceler Ernesto Araújo.

Pediram para ser resgatados. Colocaram-se à disposição para cumprir uma quarentena no Brasil. E realçaram que cidadãos de outros países —Estados Unidos, Itália, França, Reino Unido e Japão— já tinham sido resgatados. De repente, Bolsonaro esqueceu todos os empecilhos que vinha mencionando para informar, em pleno domingo, que o governo enviaria, finalmente, um avião para buscar os nativos que estão submetidos ao risco de contágio na China.

Ficou entendido que, no atual governo, o que vale não é o passaporte, mas a identidade digital. Mesmo em tempos de vírus, só consegue a atenção do presidente quem produz vídeos capazes de viralizar —com trocadilho, por favor— nas redes sociais.

Se Bolsonaro tivesse chanceler de verdade, não o áulico Ernesto Araújo, teria percebido mais cedo que um país não pode abandonar os seus nacionais em dificuldade no estrangeiro. Seria algo tão absurdo quanto um capitão que abandonasse soldados em apuros no campo de batalha.

Josias de Souza