PUBLICIDADE
Topo

Silêncio de Bolsonaro sobre miliciano é erro primário

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

11/02/2020 00h50

No seu primeiro encontro com os repórteres depois da morte do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, Jair Bolsonaro se recusou a dar entrevista. Foi um erro primário. Num país que cultiva a pretensão de se ser civilizado, a civilização é tudo o que sobra para ser desenterrado dez mil anos depois. Num futuro remoto, quando os arqueólogos desencavarem as antiguidades de Brasília, encontrarão escondidos nos subterrâneos do Planalto vestígios de uma anomalia: um presidente frequentava o noticiário na companhia de um miliciano apelidado de Caveira.

O que é que nós tínhamos até aqui? Ex-capitão do Bope, Adriano Magalhães, o Caveira, chefe da milícia de Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, estava foragido havia mais de um ano. Ele é amigo de Fabrício Queiroz, o faz-tudo da família Bolsonaro. A mulher e a mãe do Caveira foram acomodadas na folha salarial rachadinha do gabinete de Flávio Bolsonaro na ocasião em que ele dava expediente na Assembleia Legislativa do Rio.

Numa época em que o ex-capitão Adriano já era mais Caveira do que PM, Flávio concedeu a ele a Medalha Tiradentes, a mais elevada comenda da Assembleia. Em 2005, o próprio Jair Bolsonaro, então deputado, escalou a tribuna da Câmara para criticar uma condenação imposta ao miliciano amigo. A esse conjunto de informações agregou-se no domingo uma novidade tóxica.

Localizado na cidade baiana de Esplanada, o Caveira foi morto em confronto com as polícias do Rio e da Bahia. O advogado do morto, doutor Paulo Emílio Catta Preta, diz ter conversado com ele pelo telefone na terça-feira da semana passada. Recomendou ao cliente que se entregasse. Mas o Caveira, segundo o advogado, rejeitou a ideia sob a alegação de que tinha certeza de que a polícia queria matá-lo "por queima de arquivo." Foi contra esse pano de fundo que Bolsonaro, sempre tão loquaz, se calou.

Não é hora para silêncios. Ou o presidente aproveita a oportunidade para tomar distância do personagem ou os responsáveis pela arqueologia do Brasil concluirão no futuro que o país já era pouquíssimo civilizado no ano da graça de 2020. Nessa época, o presidente e sua família coabitavam as notícias com um miliciano cujo arquivo incluía negócios ilícitos com caça níqueis, grilagem e assassinatos por encomenda.

Bolsonaro se nega a conversar com repórteres ao sair do Palácio da Alvorada

Josias de Souza