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Não podendo elevar sua estatura, Bolsonaro rebaixa o teto da Presidência

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/02/2020 18h50

O tratamento dispensado por Jair Bolsonaro à imprensa evolui aceleradamente do desrespeito para a indignidade. O presidente já não compromete apenas o que resta da sua reputação. Incapaz de elevar a sua estatura, Bolsonaro rebaixa o teto da Presidência. Ao insultar a jornalista Patricia Campos Mello, difundindo em tom jocoso insinuações sexuais, Bolsonaro associou à figura da autoridade máxima da República um comportamento asqueroso.

Bolsonaro insulta jornalista da Folha com insinuações sexuais

TV Folha

Bolsonaro se consolida como um presidente sui generis num regime supostamente democrático, do tipo que jamais nega à imprensa o direito inalienável de concordar inteiramente com ele. Para Bolsonaro, as entrevistas são sempre bem-vindas. E elas se tornam melhores quando o presidente consegue dialogar com os repórteres à sua maneira. Para ele, o melhor diálogo é aquele em que o presidente obriga o interlocutor a calar a boca. Se o repórter insiste na pergunta, Bolsonaro interrompe a entrevista.

Bolsonaro sempre perde a linha quando não acha resposta para uma pergunta incômoda. Antes de dar as costas, ele questiona a sexualidade de um repórter, ofende a mãe de outro, faz gracejos sexistas em relação a uma jornalista que fez reportagem que não saiu ao seu gosto. Isso não é normal. É absurdo. Como os males sob Bolsonaro sempre vêm para pior, o absurdo tem método. É ensaiado. É executado de forma teatral, de modo a saciar a fome de controvérsia dos seus súditos nas redes sociais.

Bolsonaro acha que desmerece a imprensa com seus ataques. É um engano. Na verdade, o presidente oferece aos repórteres que agride diariamente a oportunidade de se engrandecer. O único engajamento político que um jornalista que acompanha o poder deve ter é o seu compromisso de expor os desvios e a estupidez dos que exercem o poder em nome da sociedade. Se não fosse pelos jornalistas, a indignidade não deixaria vestígios. Bolsonaro vai deixando para a posteridade um rastro de incivilidade.

Josias de Souza