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Pressão salarial de polícias se propaga pelo país

Sobral 24 HORAS
Imagem: Sobral 24 HORAS
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

20/02/2020 04h45

O motim da Polícia Militar do Ceará é uma explosão localizada de um problema que tem dimensões nacionais. A pressão das polícias por reajustes salariais se propaga por diversos Estados.

O movimento ganhou novo impulso depois que o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, elevou os contracheques dos servidores da segurança pública em 41,7%.

O blog conversou com três governadores nesta quarta-feira —um da região Sudeste e dois do Nordeste. Sob a condição do anonimato, eles detonaram o colega Zema.

Minas vive uma ruína fiscal. Deve à União R$ 93 bilhões. Em 2020, amargará déficit orçamentário estimado em R$ 13 bilhões. Ainda não honrou o 13º dos servidores. Paga salários em parcelas há mais de três anos.

"Quebrado, o governo mineiro jogou gasolina numa fogueira que arde em praticamente todos os estados", queixou-se um governador.

"Zema forneceu munição para potenciais amotinados", reclamou outro. "Diante de um reajuste de 41,7%, como vou convencer os radicais de farda que meu Estado não aguenta pagar mais do que 3%?"

Um dos entrevistados declarou que, além da generosidade de Zema, outro fenômeno contribui para retirar do armário a agenda salarial dos policiais. Batizou a encrenca de "Efeito Bolsonaro".

Surfando a mesma onda conservadora que levou o capitão ao Planalto, elegeram-se em 2018 deputados estaduais, federais e até senadores egressos da área de segurança.

"É gente que fundiu o título ao nome: Delegado fulano, Major sicrano... Isso já existia. Mas nunca tivemos uma polícia tão política como agora. O presidente da República é visto como líder e porta-voz dessa corporação."

Zema e Bolsonaro podem ser bons pretextos. Mas não se comparam ao pavio que leva a explosões como a que desafia a lei e convulsiona a ordem no Ceará. Chama-se "anistia" a principal causa da fuzarca policial.

Num intervalo de cinco anos, entre 2011 e 2015, aprovaram-se no Congresso duas grandes anistias para bombeiros e policiais que realizaram mais de três dezenas de greves e motins em 22 Estados e no Distrito Federal.

A anistia de 2011, primeira farra do perdão a policiais amotinados, nasceu no Senado. Na origem, o projeto destinava-se a limpar o prontuário de 439 bombeiros grevistas processados por depredar um quartel no Rio de Janeiro.

Durante a tramitação, os parlamentares enfiaram no projeto o perdão para PMs grevistas de 14 Estados. E a coisa não parou mais. O flagelo da anistia tornou-se o principal estímulo às paralisações ilegais de corporações armadas.

A incúria estadual costuma fazer escala no Tesouro Nacional, pesando no bolso dos contribuintes de todo país. Isso acontece quando o caldo entorna e os governadores são forçados a pedir socorro à Força Nacional de Segurança, como acaba de fazer o Ceará, ou às Forças Armadas, como já fizeram, em passado recentíssimo, estados como Bahia e Espírito Santo.

Senador Cid Gomes é baleado num conflito com PMs amotinados em Sobral (CE)

Josias de Souza